Colcha de retalhos

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Dia desses, fui contratar um plano de saúde. Saí de lá com um contrato assinado, uma história contada e uma ouvida. Paro em outro ponto. Mais uma história narrada. “Pronto”, pensei, “tornei-me uma contadora de história”.

Histórias… retalhos que se juntam. Partes da vida que se sobrepõem independente se combinam ou não, mas que no desarranjo das cores, das estampas, dos desejos, do destino, formam uma colcha de retalhos.

Lembro-me de Marina (Colassanti), com sua moça tecelã: usava o tear para construir e destruir sua história. Bordava bonito com cores combinadas. Eu não. Embora admire sobremaneira o seu “tecer era o que fazia, tecer era o que queria fazer”, vou juntando retalhos, desses que a vida me dá, com texturas, desenhos e qualidade distintos.  Retângulos, quadrados, círculos, formas variadas de retalhos que precisam se ajeitar. Às vezes parece que nada combina com nada, em outras, uma  combinação perfeita.

Vou cosendo minha colcha. Parte por parte. Tecidos que a vida me dá.  Algumas vezes, escolho o pano, pago o preço e compro. Alguns consigo dispensar. Entre escolhas e o inevitável, decisões e consequências, componho minha colcha. Leve para os dias de calor, quente no inverno, ou insuficiente para os dias frios, ou pesada demais para algumas ocasiões. Sorte que as variações de temperatura sempre passam…

Com o tempo, histórias um dia longas e de cores vivas, tornam-se retalhinhos, cada vez mais puídos, ralos, desgastados.

Nos quadrantes centrais, permanecem os retalhos mais fortes e mais importantes. Lá se encontram a fé, a família, o que faço, a minha essência.

Tento coser da melhor forma possível. Tento dar harmonia e acabamento refinado. Tento dar os pontos mais resistentes. Tento dar regularidade ao tamanho dos tecidos e dos pontos. Tento manter o equilíbrio entre os tecidos que tenho, os que já tive e os que pretendo ter. Tento aprender com os tecidos que rasgaram ou com aqueles que não combinaram com o montante da colcha. Reconheço que todos os retalhos foram importantes para a pessoa que sou hoje. Agradeço por todos eles. Agradeço pelos que virão e, acima de tudo, procuro valorizar os retalhos com os quais estou trabalhando hoje. São preciosos. Com certeza, os mais bonitos que eu poderia ter.

Olho-os com carinho. Vejo onde cada um pode se encaixar, sem pressa. Não raro, a ansiedade me leva a um tecido mal colocado. Às vezes consigo consertar, noutras, só posso aceitar.

Colcha de retalho ganha forma. Eu ganho história.

Colcha de retalho se faz. Eu me constituo.

Colcha de retalho aumenta. Eu amadureço.

Colcha de retalho desbota. Eu envelheço.

Colcha de retalho ganha tecidos. Eu trabalho.

Chega estampa de gente. Eu convivo, cativo, afasto, aproximo.

Chega estampa de bicho. Eu afago.

Chega estampa de flor, paisagem, mar. Eu aprecio.

Chega estampa de santo. Eu rezo.

Chega estampa de nada. Eu crio.

Mas o que mais gosto mesmo é quando chega estampa de pôr-do-sol. Olho aquela luz amarela deitando sobre a Terra, sinto o calor que aquece sem machucar, a luminosidade recai sobre minha colcha, elucida o que era escuro, clareia os olhares, pensamentos, vozes, os sentires. Essa luz me inunda. Ela é capaz de esvaziar minha ansiedade. Espero o tempo que for para vê-la baixar, beijar a Terra, passar e ir embora.

Minha colcha volta ao escuro. Recolhe-se para a noite. Amanhã continuaremos. Eu, cosendo. Ela, dando-me o já existente e os dias de hoje e de amanhã para formá-la.  Colcha de retalhos e eu nos construímos juntas. Às vezes estranhas, às vezes idênticas, às vezes semelhantes, às vezes só nos aceitando, sem julgamento do que somos uma a outra. Essa é a maneira mais confortável de nos olharmos: aceitando o que uma dá para outra, sem cobranças, no máximo, com sabedoria para fazer reajustes, arremates e refazer partes. Sem culpa. Sem alarde. Sem reclamação. Coser é um ofício humano, não detém a perfeição das máquinas. Por outro lado, sem acomodação e sem procrastinar. Coser é um trabalho e sem ele a colcha fica do mesmo tamanho.

Importante que haja pausas para contemplar a colcha: esse retalho combina aqui? E se eu procurar outro? Outra cor, tamanho, estampa… Pausas, o ócio contemplativo sugere ideias e descansa a alma.

É o que acabei de fazer. Parei um pouco minha colcha para vasculhar a mente. Gostei do que encontrei, mostrei meus retalhos. Agora, vou voltar a coser porque minha colcha está ficando autêntica, verdadeira, única e a minha face e só eu posso terminá-la.

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos
Juliana Ormastroni de Carvalho Santos possui graduação em Letras e Pedagogia, é mestra em Educação e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem. Atua na área de revisão editorial, docência, formação de professores e educação.

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