V Semana de Enfermagem Fiocruz reafirma ciência, ética e política como dimensões indissociáveis do cuidado

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A V Semana de Enfermagem Fiocruz reuniu cerca de 300 profissionais de enfermagem de diferentes unidades da Fundação. O evento integra o calendário institucional de valorização da enfermagem, reafirmando o compromisso da Fiocruz com o fortalecimento do cuidado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

A tradicional Cerimônia da Lâmpada enalteceu os legados da enfermeira Florence Nightingale e de Oswaldo Cruz (Foto: Bruno Guimarães)

Com o tema Enfermagem Fiocruz: ciência e Sistema Único de Saúde (SUS) como expressões técnicas, éticas e políticas do cuidado, o evento foi estruturado a partir de três grandes eixos: ciência, ética e política, que orientaram mesas-redondas, debates e trocas de experiências ao longo do dia. A proposta evidenciou o cuidado como prática fundamentada no conhecimento científico, protegida por princípios éticos e atravessada, de forma inevitável, pelas decisões políticas que organizam o sistema de saúde.

A programação teve início com credenciamento e café de acolhimento, seguidos da abertura oficial, marcada pela tradicional Cerimônia da Lâmpada, símbolo histórico da enfermagem. A mesa de abertura reuniu representantes da Presidência da Fiocruz, da Diretoria Executiva, de direções de unidades da Fundação, do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e das responsáveis técnicas de enfermagem.

Mesa de abertura: cuidado, afeto e responsabilidade coletiva

Representando a Presidência da Fiocruz, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), Valcler Rangel, destacou que o cuidado não pode ser substituído pela tecnologia e ressaltou a centralidade da enfermagem em todas as dimensões do sistema de saúde. “Não há substituição para o contato, para o afeto e para o cuidado pela vida. A enfermagem está no cuidado direto, mas também na gestão, na vigilância, na pesquisa e na educação. É uma presença fundamental em muitos lugares do SUS”, afirmou, ao dar as boas-vindas às equipes do Hospital Federal da Lagoa (HFL) integradas à Fundação.

O diretor-executivo da Fiocruz, Juliano Lima, compartilhou uma experiência pessoal recente como familiar de pacientes internados, destacando o impacto da atuação da enfermagem. “Quem já teve uma filha nos braços de uma técnica de enfermagem sabe o valor dessa profissão. Não há trabalho mais digno do que aquele que melhora a vida de outra pessoa”, reverenciou, ressaltando que a vivência reforçou sua convicção sobre a importância da valorização da categoria.

Ao resgatar a trajetória do evento, o diretor do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Antônio Flávio Meirelles, lembrou que a Semana de Enfermagem foi incorporada ao calendário oficial da Fiocruz como reconhecimento institucional da categoria. “Cuidar tem tudo a ver com a enfermagem. Pensar o cuidado é pensar também em quem cuida, especialmente em contextos de doenças raras e crônicas. Esta é uma questão ética e política que precisamos enfrentar”, salientou, destacando o papel da enfermagem no olhar ampliado sobre pacientes e cuidadores.

A diretora do Hospital Federal da Lagoa (HFL/Fiocruz), Lívia Menezes, ressaltou que a Semana de Enfermagem é um espaço que celebra e, ao mesmo tempo, provoca reflexão crítica. “O encontro reafirma que o cuidado em saúde se constrói a partir da integração entre conhecimento técnico, compromisso ético e responsabilidade política com o interesse público”, destacou, enfatizando a importância da enfermagem na organização dos serviços, na segurança dos pacientes e na continuidade do cuidado, especialmente no contexto de integração institucional.

O diretor do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), Estevão Portela, enfatizou a enfermagem como referência de excelência e responsabilidade no cotidiano da saúde. “Sempre que encontro um profissional extremamente zeloso e eficiente, penso na enfermagem. Vocês não cuidam apenas dos usuários do sistema, cuidam também de nós, profissionais de saúde”, afirmou, defendendo o reconhecimento proporcional à amplitude e à relevância da atuação da categoria.

Representando a Vice-Direção de Atenção à Saúde e Laboratórios da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Fátima Rocha destacou a importância estratégica da enfermagem para a sustentabilidade do cuidado e da rede pública de saúde. “Defender a enfermagem é defender a formação pública de qualidade, as condições dignas de trabalho e um sistema de saúde ético, comprometido com a vida”, declarou, ressaltando a expressiva produção científica da categoria na Fiocruz e os desafios da precarização e da invisibilidade histórica do trabalho em saúde.

A ex-ministra da Saúde e ex-presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, protagonizou um momento de emoção ao destacar a importância da V Semana de Enfermagem Fiocruz no contexto das celebrações do Dia Internacional da Enfermagem, em 12 de maio. Ela ressaltando o papel central da categoria no cuidado em saúde no Brasil e no mundo. Em sua fala, enfatizou que iniciativas como o evento nascem da escuta de quem está na ponta do cuidado e da capacidade da gestão de reconhecer as demandas do cotidiano do trabalho. “Quem está na gestão não pensa tudo sozinho. Muitas ideias surgem de quem está ali, no dia a dia do cuidado, e saber escutar isso é fundamental”, afirmou.

A ex-presidente da Fiocruz também ampliou a reflexão para o cenário nacional e internacional, destacando que a valorização da enfermagem envolve formação, condições dignas de trabalho e reconhecimento profissional. Nísia ainda frisou que a enfermagem integra de forma central o ecossistema de ciência, tecnologia e inovação da Fiocruz e do SUS. “Há muito o que fazer do ponto de vista do cuidado e da valorização do trabalho digno, e a enfermagem é parte central desse processo”, concluiu, sob aplausos do público.

Debates organizados em eixos temáticos

Ainda na parte da manhã, os debates tiveram início com a mesa-redonda Da evidência ao leito: quando a pesquisa transforma a prática, moderada por Mariana Cardim. O momento reuniu experiências que evidenciaram a ciência como fundamento do cuidado, com apresentações de Paula de Araújo Nicolini Rosa (IFF/Fiocruz), que abordou a produção de tecnologias educativas a partir de discursos familiares em emergências respiratórias pediátricas; Júlio Cesar Pegado Bordignon (CSEGFS), que discutiu estratégias de dinamização de práticas para o enfrentamento de parasitoses intestinais em comunidades em situação de vulnerabilidade; Vinny Fernandes Feitosa de Oliveira (HFL/Fiocruz), que tratou da aplicação da tecnologia da informação na enfermagem e seus impactos na qualidade da assistência em terapia intensiva; e Rafaella dos Santos Silva (INI/Fiocruz), que apresentou o desenvolvimento de protocolos de enfermagem para o manejo de lesões ulceradas infecciosas.

Já na parte da tarde, a programação seguiu com a mesa-redonda Ética na linha de frente: limites, conflitos e proteção da equipe, moderada por Soraya Bactuli. O debate trouxe reflexões sobre os desafios éticos e legais da prática profissional, com exposições de Danielle Bartoly, que analisou os conflitos judiciais a partir da assistência à perícia, e de Bruno Rollemberg, que abordou o posicionamento profissional e os mecanismos de respaldo legal que protegem a atuação da enfermagem no cotidiano do cuidado.

O encerramento das discussões focou na Política como Dimensão Inevitável do Cuidado, com a mesa-redonda Enfermagem e SUS: quem define as condições do nosso cuidado?. Moderado por Patrícia Marques, o debate contou com Márcio Ferreira, que ressaltou a importância da participação estratégica da enfermagem na governança e na sustentação das políticas públicas de saúde, e Alberto Gontijo (CBMERJ), que falou sobre o papel e o funcionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) no contexto da rede de saúde.

A programação contou ainda com um momento de grande emoção, dedicado às homenagens a trabalhadores e trabalhadoras da enfermagem que estão se aposentando, em reconhecimento às trajetórias marcadas pela dedicação e pelo compromisso com o cuidado. Solange Vicente e Levi Albuquerque encerram o ciclo no INI/Fiocruz em virtude da aposentadoria compulsória ao completarem 75 anos. O gesto simbólico reforçou o valor da memória institucional e do reconhecimento público àqueles que ajudaram a construir a história da enfermagem na Fundação. O evento foi encerrado com coquetel de confraternização e atração musical, em clima de celebração coletiva.

A organização da V Semana de Enfermagem Fiocruz envolveu diversas unidades da Fundação, como o Instituto Nacional de Infectologia (INI), o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), o Hospital Federal da Lagoa (HFL), Farmanguinhos, o Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, o Centro de Referência Professor Hélio Fraga e o Núcleo de Saúde do Trabalhador da Coordenação de Saúde do Trabalhador (Nust/CST), em articulação com a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) e a Diretoria Executiva da Fiocruz.

A articulação entre diferentes unidades e áreas da Fiocruz reforça o caráter coletivo e integrado da iniciativa. Ao reunir educação, pesquisa, assistência e gestão em torno do cuidado, o evento reafirma a enfermagem como eixo estruturante do SUS e da própria Fundação, fortalecendo vínculos institucionais, trocas de experiências e o compromisso comum com um cuidado científico, ético e socialmente responsável.



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