Pesquisadores da Fiocruz estão liderando a retomada de uma equipe nacional para vigilância de doenças transmitidas de mamíferos silvestres para pessoas, chamadas de zoonoses. Em parceria com o Grupo Técnico de Roedores da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS), a iniciativa busca fortalecer a investigação e a prevenção de surtos de hantavirose e outras zoonoses por meio da qualificação de profissionais de secretarias estaduais e municipais de Saúde. As atividades oferecidas pela rede incluem curso teórico remoto, capacitação prática em expedições de campo e monitoramento de animais considerados como reservatórios de patógenos.
Equipes em treinamento verificam armadilhas utilizadas na captura de pequenos mamíferos silvestres para investigações de zoonoses (Foto: Acervo)
“Vigilância é um processo que não pode parar. A importância dessa rede é que estamos nos antecipando, qualificando quadros em todo país, para enfrentamento a futuros possíveis surtos, não só de hantavírus, mas também de outras zoonoses”, afirma o chefe substituto do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e coordenador-geral da iniciativa, Paulo D’Andrea.
Implementado em 2023, o projeto retoma uma experiência surgida no início dos anos 2000, logo após a identificação dos primeiros casos de hantavirose no Brasil, nos anos 1990. A ideia de restabelecer a equipe nacional de vigilância de zoonoses partiu do Ministério da Saúde após a pandemia de Covid-19 reforçar a importância do monitoramento de reservatórios silvestres de patógenos. A relevância da estratégia ficou ainda mais evidente após o recente surto de hantavírus no navio MV Hondius.
Capacitação em campo
Os treinamentos são realizados em diferentes biomas do país, considerando características do meio ambiente e da ocorrência de doenças em cada localidade. As ações já passaram por Virgem da Lapa, em Minas Gerais; Santana do Ipanema, no Alagoas; e Barreiras, na Bahia. Em breve, devem chegar à Região Amazônica.
Participantes acompanham treinamento sobre coleta e processamento de amostras em situações de campo (Foto: Acervo)
Ao todo, 55 profissionais foram capacitados. As instruções combinam etapas teóricas e práticas para captura e coleta de amostras biológicas de pequenos mamíferos silvestres, abordando desde a escolha de áreas de investigação até a conservação das amostras biológicas, com objetivo de garantir a qualidade das análises. Ao formar novas equipes, a rede busca transmitir conhecimentos acumulados ao longo de décadas de investigação de zoonoses no país, incluindo protocolos de biossegurança desenvolvidos a partir da investigação de surtos de hantavirose.
“A identificação da hantavirose no Brasil, em 1993, foi um divisor de águas para o trabalho de campo com mamíferos silvestres. Passamos a incorporar protocolos rigorosos de biossegurança, porque muitas das espécies de roedores capturadas podem ser reservatórios do hantavírus”, comenta D’Andrea, que integrou a primeira equipe nacional de vigilância de hantavirose, treinada por especialistas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, e do Instituto Adolpho Luz.
O projeto é coordenado por D’Andrea em parceria com Marília Lavocat, do Grupo Técnico de Roedores da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS). A coordenação executiva é de Fernando de Oliveira Santos, pós-doutorando do Instituto. Além de vários laboratórios do IOC e do Ministério da Saúde, a iniciativa conta com colaboração do Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná) e Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco), e de secretarias estaduais e municipais de Saúde.
Hantavirose e vigilância ambiental
A hantavirose é transmitida principalmente pelo contato com urina, fezes e saliva de roedores silvestres infectados. Embora relativamente rara, a infecção apresenta alta letalidade e exige atenção constante da vigilância epidemiológica, especialmente em áreas rurais e de interface entre ambientes naturais e ocupação humana. No país, já foram identificadas diferentes variantes de hantavírus associadas a espécies distintas de roedores silvestres. Segundo D’Andrea, essa diversidade influencia diretamente a dinâmica da doença.
“Cada espécie de roedor está associada a um genótipo viral diferente. Então, quando acontece um surto, uma das primeiras etapas da investigação é identificar qual é o reservatório envolvido”, explica o pesquisador.
A identificação dos reservatórios ajuda equipes de saúde a compreender os ambientes de maior risco e orientar estratégias de vigilância e controle. “Tem roedor que vive em áreas de grãos, outros em regiões florestais, outros em áreas alagadas. Conhecer essas espécies é fundamental para entender a dinâmica da doença”, afirma D’Andrea.
O cientista aponta que o estudo dos hantavírus contribui, inclusive, para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. Em alguns casos, a associação específica com variantes virais ajudou a identificar diferenças taxonômicas entre roedores aparentemente semelhantes, levando à descrição de novas espécies.
“A relação entre os hantavírus e seus reservatórios mostra como o conhecimento sobre as espécies silvestres pode impactar diretamente a vigilância epidemiológica e a resposta a possíveis surtos”, ressalta D’Andrea.
O pesquisador também destaca que fatores ambientais podem favorecer o aumento do contato entre humanos e roedores silvestres. Um exemplo são as chamadas ‘ratadas’, fenômeno caracterizado pela explosão populacional de espécies de roedores após períodos de grande oferta de alimento na natureza, como a floração de bambus.
“Quando há explosão populacional de um roedor reservatório, as chances de contato dos seres humanos com estes animais aumentam exponencialmente e, consequentemente, o risco de transmissão também”, alerta D’Andrea.
“A reconstrução da equipe nacional de vigilância de zoonoses é ainda mais importante porque mudanças climáticas podem favorecer a expansão geográfica e demográfica, ou mesmo a introdução de espécies de roedores em regiões onde antes não havia circulação importante desses vírus. Precisamos estar permanentemente vigilantes”, completa o pesquisador.


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