Presidente da Fiocruz, Mario Moreira assina dois artigos na Health – A political choice (Saúde: uma escolha política, em tradução livre), publicação que acaba de ser lançada e reúne colaborações de diversas autoridades do cenário global, em coautorias de textos. Um dos autores é o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom.
A obra aborda os impactos das tendências políticas, ecológicas, sociais, tecnológicas e de segurança mais amplas na saúde global e em sua governança e examina como os principais atores da saúde global estão buscando e encontrando soluções que funcionam – muitas das quais de âmbito local, nacional ou regional. A publicação, lançada pelo Global Governance Project, se concentra em quatro grandes ameaças – mudanças climáticas, pandemias, desinformação e informações falsas e conflitos – e na busca por soluções a partir da inovação científica, tecnológica e de governança global. Cópias impressas estarão disponíveis na Cúpula Mundial da Saúde, de 12 a 14 de outubro, em Berlim.
Um dos artigos do presidente Mario Moreira é assinado em parceria com a presidente do Instituto Pasteur, Yasmine Belkaid, e a diretora-executiva da Rede Pasteur, Rebecca Grais. Intitulado Ciência e solidariedade: um novo paradigma para a saúde global, o texto destaca que “em um mundo fragmentado, a ciência continua sendo um dos poucos fios condutores verdadeiramente globais e que a colaboração sustentada e descentralizada pode proporcionar a equidade e a preparação necessárias para moldar avanços na saúde”. De acordo com Moreira, Belkaid e Grais, “a colaboração sustentada e descentralizada pode proporcionar a equidade e a preparação necessárias para moldar avanços na saúde”.
Os autores lembram que as comunidades científicas são pontes fortes entre países, continentes e sociedades e que cada grande avanço na saúde global – vacinas, tratamentos, medidas preventivas – foi construído em décadas de colaboração. E avaliam que cada resposta futura, seja a epidemias de doenças relacionadas à higiene ou à próxima pandemia, dependerá da confiança e cooperação já existentes entre cientistas em todo o mundo. “O HIV e a Covid-19 nos lembram que as ameaças globais assumem formas diferentes, mas todas exigem a mesma base: ciência colaborativa, inclusiva e sustentada ao longo do tempo”.
Os três signatários recordam que em meio à devastação promovida pela Covid-19 houve momentos de conquista e citam resiliência comunitária, governos decisivos, liderança regional e, acima de tudo, cooperação científica que produziu diagnósticos e vacinas em ritmo recorde. No entanto, afirmam o mesmo momento expôs desigualdades inaceitáveis. “O acesso a saúde, diagnósticos e vacinas foi profundamente polarizado, especialmente entre o Norte e o Sul globais. O mundo foi lembrado, mais uma vez, de que, embora a ciência possa ser global, a solidariedade é frequentemente seletiva”.
Segundo o artigo, aquele “poderia ter sido um ponto de virada. O sucesso da ciência cooperativa, combinado com a urgência da equidade, poderia ter lançado as bases para um novo paradigma de responsabilidade compartilhada. Em vez disso, outras forças prevaleceram. A narrativa de sucesso coletivo foi rapidamente abafada por agendas ideológicas e desinformação. O que poderia ter nos unido, em vez disso, aprofundou a desconfiança – um ataque à ciência e um enfraquecimento ainda maior da cooperação multilateral”.
O texto ressalta que o hiperindividualismo aumentou, a lógica da “sobrevivência do mais apto” se consolidou e normas de cooperação de longa data foram pressionadas. “À medida que as mudanças climáticas se aceleram, infecções antigas aumentam e novos patógenos surgem, a questão premente é se os sistemas de saúde são capazes de proteger todas as populações e se as instituições permanecerão fortes o suficiente para agir. A resposta está no fortalecimento do tecido conjuntivo da ciência – redes, plataformas, tecnologias e estruturas de governança que permitam a ação coletiva e incorporem a equidade”. De acordo com Moreira, Belkaid e Grais, a Rede Pasteur oferece um exemplo.
Esta aliança de mais de 30 instituições abrange cinco continentes, conectando institutos de saúde pública, universidades e laboratórios nacionais – dois terços deles no Sul Global. Cada membro é governado de forma independente, mas vinculado por uma colaboração científica compartilhada e uma missão comum: melhorar a saúde por meio da ciência e do serviço, com base na solidariedade. Muitos institutos membros estão localizados em regiões mais expostas a doenças infecciosas emergentes – na África, América do Sul e Sudeste Asiático. Eles lideraram respostas nacionais e regionais a crises como o ebola na África Ocidental, a peste bubônica em Madagascar e a mpox na África Central. Seus cientistas não são periféricos à saúde global – são atores centrais, gerando soluções a partir da linha de frente.
Tendo em vista esta rede internacional, o artigo aponta que “durante a Covid-19, o valor desses laços de longa data tornou-se evidente. Os membros trocaram dados genômicos, protocolos, reagentes e estratégias em tempo real – muitas vezes mais rapidamente do que os canais multilaterais formais. Diagnósticos locais foram criados, a vigilância de variantes foi lançada e as orientações adaptadas a cada contexto. Esses sucessos não foram impostos de cima, mas sim fruto da confiança e de relacionamentos duradouros”.
Segundo o texto em parceria, “o impacto de uma rede como esta não pode ser capturado apenas em publicações ou patentes. Seu valor reside na resiliência, na prontidão e nas contribuições para bens públicos que beneficiam a todos. Investimentos estruturados e em rede como este proporcionam retornos excepcionais – não apenas evitando crises, mas também gerando inovação local e regional e fomentando a cooperação em um mundo multipolar”.
Em função disso, o artigo sublinha que “revitalizar a solidariedade global requer a construção de uma arquitetura que a possibilite, com redes, plataformas, capacidade de produção local e regional e governança inclusiva. Se quisermos acelerar a inovação, precisamos apoiar os produtos e também os ecossistemas que os geram – especialmente em regiões historicamente subfinanciadas. Isso requer investimento de longo prazo em mecanismos como a Rede Pasteur, que sustentem a confiança, o diálogo e os fluxos de conhecimento entre línguas e culturas”.
O artigo conclui ressaltando que a infraestrutura da saúde do século XXI precisa ter não muros, mas pontes – e novas maneiras de recompensar a cooperação. “A Rede Pasteur colabora com diversos parceiros de todo o mundo, com o objetivo de construir mais pontes e fortalecer as existentes. A solidariedade não é opcional – é uma necessidade. Os avanços do nosso século não virão do mito do gênio isolado, mas da cooperação organizada, baseada na confiança, na equidade e no comprometimento compartilhado”.
O outro artigo é assinado por Mario Moreira em conjunto com o ex-presidente da Fiocruz Paulo Buss e o assessor da Presidência da Fundação para Assuntos Internacionais, João Miguel Estephanio. No texto, intitulado Fortalecimento dos institutos nacionais de saúde pública: a perspectiva da Fiocruz, os autores defendem a ideia de que, “para promover a segurança sanitária global, os países devem investir na produção local e capacitar os institutos nacionais de saúde pública, recorrendo à ciência, à inovação e à cooperação para construir sistemas de saúde mais bem preparados”.
O artigo começa destacando o papel da Fiocruz e sua trajetória, que completou 125 anos em 2025. Os autores citam o espaço central que a Fundação desempenha na formulação e implementação de políticas de saúde que visam garantir o acesso equitativo à saúde em todas as suas dimensões. Segundo eles, “a Fiocruz transforma conhecimento em ações que salvam vidas por meio de educação, vigilância, pesquisa, inovação, serviços hospitalares e da produção industrial de vacinas, medicamentos, diagnósticos e terapias avançadas. Este complexo sistema de ciência e tecnologia construiu capacidades críticas de preparação graças ao árduo aprendizado durante a pandemia de Covid-19. Isso ajudou o Brasil a prever e responder a emergências de saúde e colocou a Fiocruz no centro das discussões globais sobre prevenção, preparação e resposta, em estreita coordenação com o Ministério da Saúde do Brasil e a Organização Mundial da Saúde”.
Para Moreira, Buss e Estephanio, está claro que duas escolhas políticas se destacam como particularmente impactantes para o avanço da segurança sanitária global: “estabelecer mecanismos para coordenar esforços globais na produção local e reforçar o papel dos institutos nacionais de saúde pública”. Posição que, afirmam, a “Fiocruz, como instituto nacional de saúde pública do Brasil, com sua experiência institucional em iniciativas nacionais e cooperação internacional, está bem posicionada para avançar em ambas as agendas, sob a orientação da OMS e por meio da colaboração com organizações internacionais”.
Eles recordam o papel estratégico nas presidências brasileiras do G20 em 2024 e dos Brics em 2025 e o fato de a Fiocruz ter sediado a primeira conferência dos institutos nacionais de saúde pública do G20. “Nos Brics, a Fiocruz coordena três iniciativas delegadas pelo Ministério da Saúde: o Centro de P&D de Vacinas, a Rede de Pesquisa em Saúde Pública e Sistemas de Saúde e a Conferência dos Institutos Nacionais de Saúde Pública”.
O texto também lembra as parcerias com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), como as presidências do Grupo Consultivo Estratégico sobre o Aumento da Inovação Regional e da Capacidade de Produção de Medicamentos e Outras Tecnologias em Saúde, ocupadas pela Fiocruz. E cita os centros colaboradores da Opas (em atenção primária à saúde, leptospirose, ensino para a força de trabalho técnica em saúde, banco de leite humano, saúde global e cooperação Sul-Sul e políticas farmacêuticas) gerenciados pela Fiocruz.
Outras inciativas, como a coordenação do Consórcio Colaborativo de Pesquisa Aberta da OMS sobre Flavivírus, a capacitação em vigilância genômica para países da América Latina, Caribe e países de língua portuguesa, o Comitê de Liderança da Rede Internacional de Vigilância de Patógenos e o Centro da OMS para o desenvolvimento e produção de vacinas usando mRNA na América Latina, são igualmente listados no artigo, que comenta ainda a participação na rede de fabricantes de vacinas da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations do Sul Global, a presidência da Rede Pasteur e a cooperação com a Unitaid, a iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, e o Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais.
Os três autores concluem que, em um mundo marcado por riscos ao multilateralismo, “fortalecer a produção local e consolidar o papel dos institutos nacionais de saúde pública são imperativos urgentes. A experiência da Fiocruz demonstra o potencial de combinar ciência, inovação e cooperação para construir sistemas de saúde mais bem preparados, comprometidos com a promoção de um mundo mais justo e sustentável, onde ninguém seja deixado para trás”.


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