“Jaudjo”. A saudação, que quer dizer ‘bom dia” e foi incorporada pela equipe da Fiocruz na Aldeia Boa Vista Mbya, em Ubatuba (SP), marcou o início do compartilhamento de saberes ocorrido durante a programação do Tekoha Reko Porã, atividade do Abril Indígena, realizada nos dias 28 e 29 de abril. O evento integrou a programação da Caravana do Bem Viver, realizada em Paraty pelo Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), que sediou o evento, o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) e a Fiocruz.
As ações partem do reconhecimento de que não existe um único modelo de cuidado, que é preciso respeitar as diferenças entre os povos, ouvir as comunidades, caminhar junto e não impor soluções (Foto: VPAAPS/Fiocruz)
Após uma roda com cânticos e intensa participação de jovens e membros das aldeias Rio Silveiras, Rio Bonito (São Sebastião), Boa Vista (Ubatuba), Itaxi (Paraty), Sapukay Bracui (Angra dos Reis) e Mata Verde Bonita (Maricá), a mesa de abertura foi composta pelas lideranças indígenas: Edson Nunes (Itaxi), Lucas Xunu (Sapukay), Marcos Tupã (Boa Vista), Ivanildes Kerexu (Rio Bonito), Dauri (Maricá) e Lourdes (Rio Silveiras). As apresentações das lideranças foram feitas em guarani mbya, língua nativa dos participantes. Na sequência, Ivanildes Kerexu, liderança indígena que coordena o Eixo Saúde e Bem Viver do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), que integrou a mesa de abertura, falou sobre a importância do evento e do uso da língua guarani.
“Este é um exercício que já vínhamos pensando há algum tempo, e hoje estamos aqui para fortalecer a juventude. O debate nos traz reflexões sobre saúde, bem-viver, preservação da nossa cultura tradicional e da nossa ancestralidade”, destacou. “Para a juventude de hoje, em diferentes aldeias, é importante lembrar que esta é uma forma que nossos mais velhos sempre nos ensinaram, que é manter viva esta voz, esta tradição que segue até hoje por meio da nossa língua materna. Quando falamos com a nossa juventude e buscamos repassar nossos conhecimentos, isso precisa ser feito na nossa própria língua. Por isso, pedimos a compreensão dos nossos parceiros, pois o uso da nossa língua é fundamental, especialmente neste momento em que nossas lideranças de base se dirigem à juventude”, explicou Ivanildes.
Representando a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), a servidora da Fiocruz Mata Atlântica (FMA) Andrea Vanini saudou as lideranças e falou sobre a oportunidade da Fundação construir a atividade de forma coletiva. “Quero saudar as lideranças, os anciãos e anciãs, que estão aqui presentes. Fico muito feliz também com a presença maciça da juventude, é muito bom ter vocês nos eventos. É com muito respeito que falo em nome da Fundação Oswaldo Cruz. Queremos reforçar que viemos como um espaço de escuta, de diálogo e de construção conjunta, reconhecendo que os povos originários são os primeiros habitantes deste território e guardiões de saberes essenciais para a vida e para a saúde de todos”, afirmou.
Andrea destacou a missão da Fiocruz como instituição que atua no fortalecimento do Sistema Único de Saúde e na defesa da saúde como um direito. “Embora a gente saiba que a saúde para os povos indígenas vai muito além do atendimento nos serviços. Saúde para vocês é terra marcada, é água limpa, é alimentação tradicional, é cultura viva e língua também. Dentro da Fiocruz temos esta compreensão. Nossas ações partem do reconhecimento de que não existe um único modelo de cuidado, que é preciso respeitar as diferenças entre os povos, ouvir as comunidades, caminhar junto e não impor soluções de fora. Nosso objetivo é apoiar a atenção nos territórios, fortalecer o cuidado valorizar quem já cuida, pajés, parteiras, lideranças espirituais e os profissionais indígenas de saúde que atuam no SUS”, reforçou.
A coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), organização indígena que reúne coletivos do povo guarani, Juliana Keruxu, falou sobre a representatividade, a forma de organização e a luta do grupo. “É com muita alegria e honra que estou aqui, compartilhando e dialogando com a comunidade e com nossos parceiros. Esses encontros fortalecem a nossa luta. É importante apresentar a Comissão, que representa o povo guarani, uma das maiores populações indígenas da América Latina, presente também na Argentina, no Paraguai e em parte da Bolívia, e que não se limita às fronteiras do nosso território”, explicou.
“Nossa organização se estrutura a partir do modo de vida guarani. Assim, o planejamento e o desenvolvimento dos projetos junto aos apoiadores seguem uma proposta coletiva. As decisões também são coletivas e seguem os princípios e as orientações dos nossos mais velhos”, destacou a referência à sabedoria dos anciãos da comunidade na tomada de decisões.
A coordenadora técnica do projeto de Saúde Indígena e Bem Viver do OTSS, Marília Capponi, falou sobre o trabalho desenvolvido nas aldeias: “Minha percepção, como psicóloga do Observatório no território guarani, vem do meu trabalho, iniciado há três anos, quando cheguei ao território. É preciso muito respeito para estar aqui. Desde o início, buscamos construir este evento de forma coletiva. Eu não dei nenhum passo sem consultar a Ivanildes e ela dizer o que deveria ser feito. Acho que assim fui conquistando a confiança no território”, explicou.
“A atuação no projeto de saúde mental tem trazido essa discussão sobre saúde e bem viver como algo integrado, que não está descolado da saúde espiritual e como um todo. É a partir dessas conversas que temos orientado nossas práticas e discussões”, afirmou. A programação da parte da tarde contou com oficina de pintura corporal com jovens.
Juçara, plantio coletivo e desfile
O segundo dia de atividades começou com uma roda de conversa sobre Saúde e bem-viver – Impactos do uso abusivo do celular, com o psicólogo Fábio Arévalo. A atividade mobilizou a comunidade, que se sentiu à vontade para se manifestar, em grande parte em guarani, e contou com a participação ativa de jovens, dos mais velhos e de apoiadores de saúde indígena.
A parte da manhã também contou com uma oficina sobre juçara, chamada de “o açaí da Mata Atlântica”, ministrada pelo Observatório junto com o Fórum de Comunidades Tradicionais. Além da colheita, foi apresentado o processo de produção e embalagem para conservação da polpa. Com os olhos atentos às orientações, Anderson Karai Mirin, de 20 anos, da Aldeia Sapukay, falou sobre a oficina. “Achei muito interessante porque a maioria dos jovens nem conhecia o processo, e é uma oportunidade de continuar esse trabalho no território. Quem sabe até, mais pra frente, os jovens possam se aprimorar e passar o conhecimento para o território”, refletiu entusiasmado.
Após o almoço, simultaneamente à oficina sobre caramujos e técnica de captura, promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), foi realizado o plantio coletivo de mudas de erva mate, doadas pela Fiocruz Mata Atlântica. Dos mais velhos a crianças, a atividade mobilizou toda a comunidade em torno do plantio, promovendo um verdadeiro mutirão no território. Segundo Lucas Xunu, a erva mate tem uma importância simbólica fundamental para os guarani.”É muito bom saber que poderemos contar novamente com a erva mate, que, para nós, tem um significado especial. Nos rituais de batismo, nós maceramos a erva e compartilhamos o chá entre todos os presentes”, contou. O evento também teve a participação do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz), do Inova Agroecologia Maricá, do Fórum Itaboraí e do movimento Baía Viva.
Para encerrar a programação do evento, foi realizada a segunda edição do Desfile da Beleza e do Bem Viver, que celebrou a identidade, a arte e a autoestima indígena. Segundo Ivanildes, no primeiro ano, o desfile teve uma repercussão muito positiva na comunidade. “O que nós vamos mostrar aqui é a nossa beleza interior. Reafirmar que a criança, o jovem, o povo guarani tem a sua beleza, seja pela pintura, cabelo e modos de vida, fortalecendo a sua autoestima. Quero dizer que não estamos finalizando, esse é o começo de outros eventos que virão pela frente, eu acredito”, afirmou.
Em seguida, a coordenadora de Gestão da VPAAPS/Fiocruz, Ana Feitosa, destacou a relevância do evento. “Quero dizer da nossa felicidade de estar aqui, depois desse desfile tão lindo e emocionante. Agradeço por vocês receberem a gente sempre tão bem, pelo acolhimento e pela parceria. Ficamos muito felizes em construir essa história junto com vocês, aprender, promover saúde e territórios saudáveis”, afirmou. “Temos a convicção de que o futuro é ancestral e estamos de mãos dadas com vocês para ganhar força, garantir sustentabilidade, preservar o meio ambiente e reconhecer a natureza como parte de nós. Queremos fortalecer cada vez mais projetos como este, que valorizem os saberes ancestrais e a troca de conhecimentos, porque é isso que nos fortalece e que é a força do país. Também agradeço a todos os parceiros pela garra e pelo esforço ao longo destes dias”, concluiu.


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