Tesouro Reserva ganha força e pode elevar custo do crédito imobiliário

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O lançamento do Tesouro Reserva adicionou um novo concorrente à poupança, tradicional fonte de recursos do crédito imobiliário no Brasil. Com aplicações a partir de R$ 1 e liquidez diária, o título público já movimentou R$ 208 milhões nos dois primeiros dias de negociação e surge como alternativa para investidores em busca de maior rentabilidade.

A mudança ocorre em um momento de perda gradual de espaço da poupança. Segundo a 9ª edição do “Raio X do Investidor Brasileiro 2026”, da Anbima em parceria com o Datafolha, a participação da caderneta caiu de 26% em 2022 para 22% em 2025.

Além disso, a poupança vem registrando saídas líquidas recorrentes. Desde janeiro de 2021, apenas 15 dos 64 meses tiveram captação positiva. Os saldos negativos foram de R$ 34,75 bilhões em 2021, R$ 80,94 bilhões em 2022, R$ 72,39 bilhões em 2023, R$ 21,72 bilhões em 2024, R$ 62,98 bilhões em 2025 e R$ 31,46 bilhões até abril de 2026.

O principal motivo é a rentabilidade. Atualmente, a poupança rende 6,17% mais a Taxa Referencial (TR) de 0,5%, percentual inferior à Selic de 14,50%. Já o Tesouro Reserva acompanha a taxa básica de juros, tornando-se mais competitivo em cenários de juros elevados.

“A perda de recursos na poupança que já vem acontecendo afeta de forma direta o mercado imobiliário. Pode ser mais uma ameaça a essa estrutura que hoje financia o mercado habitacional de classe média”, diz José Urbano Duarte, consultor e ex-vice-presidente de Habitação da Caixa.

Impacto no funding imobiliário

O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) continua sendo uma das principais fontes de financiamento habitacional para imóveis de classe média, fora do Minha Casa, Minha Vida. Porém, o mercado de capitais vem ganhando relevância por meio de instrumentos como LCI, CRI e LIG.

Segundo a Abecip, atualmente 28% do funding imobiliário vem da poupança, enquanto 39% já é originado via mercado de capitais. O avanço dessas fontes altera o custo de captação das instituições financeiras.

“À medida que você vai diminuindo a capacidade da poupança participar desse mix, você vai aumentando o percentual do dinheiro mais caro e, consequentemente, isso vira juros mais alto para o cliente”, explica Urbano.

Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP, avalia que o movimento de saída da poupança já ocorre há anos.

“Com toda a oferta de novos produtos, inclusive do Tesouro, não este de agora, mas todos, a poupança vem tendo uma arrecadação líquida negativa.”

Apesar disso, Petrucci acredita que o Tesouro Reserva não deve provocar uma mudança brusca no estoque da caderneta, hoje estabilizado em cerca de R$ 750 bilhões.

“Para operar na poupança, não precisa ter conta corrente e ainda é isenta de Imposto de Renda. Você não tira uma pessoa disso e ensina a fazer operação pela B3. Por isso acho que não vai afetar significativamente o saldo da poupança”, diz.

A Abrainc segue a mesma avaliação e considera que o Tesouro Reserva deve competir principalmente com produtos como Tesouro Selic e CDBs.

Mercado de capitais amplia participação

Com menos recursos na poupança, bancos recorrem cada vez mais ao mercado de capitais para financiar o crédito imobiliário. O problema é que essas fontes possuem custo maior de captação.

“Enquanto a taxa de juros não cair para níveis mais acessíveis, próximos de 8%, a solução via mercado de capitais tende a dar acesso à moradia para muito menos pessoas do que a poupança, justamente porque se trata de um dinheiro mais caro. O crescimento dessas alternativas não significa necessariamente que o mercado encontrou uma solução definitiva para o funding imobiliário”, afirma Urbano.

Ainda assim, o especialista destaca que esse processo será gradual e pode mudar caso a Selic recue nos próximos meses.

Petrucci também descarta impacto direto do Tesouro Reserva sobre os juros imobiliários.

“A tendência é, inclusive, de queda, se a Selic realmente recuar durante o resto do ano.”

Liberação do compulsório busca compensar perda da poupança

Para reduzir a pressão sobre o funding imobiliário, o governo federal anunciou, em outubro do ano passado, a liberação gradual do compulsório da poupança.

O percentual de depósitos que os bancos precisavam manter parados no Banco Central caiu inicialmente em 5%. A partir de 2027, haverá redução anual de 1,5 ponto percentual até o compulsório ser zerado em cerca de dez anos.

Na prática, a medida amplia a capacidade dos bancos de conceder crédito imobiliário e busca compensar a menor participação da poupança no sistema.

Perspectiva para 2026 segue positiva

Mesmo com a mudança estrutural no funding, o setor mantém expectativa de crescimento. No primeiro trimestre de 2026, as contratações via SBPE avançaram 11%.

A Abecip projeta expansão de 16% no crédito imobiliário em 2026, após alta de 3% em 2025. A expectativa é de que a redução da Selic impulsione a demanda por financiamentos.

Segundo a entidade, os financiamentos com recursos da poupança devem crescer 15% neste ano, alcançando R$ 180 bilhões.

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Informações retiradas de Rebecca Crepaldi à Exame



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