Para onde vai o preço dos imóveis? A queda da Selic já dá o sinal — e a tendência é de alta

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A discussão sobre a queda da taxa básica de juros voltou ao centro das decisões de investidores, incorporadores e compradores. Em um país onde o custo do dinheiro sempre foi um dos principais freios ao crescimento, qualquer sinal de afrouxamento monetário é interpretado como combustível para o mercado imobiliário. Mas, mais uma vez, a análise rasa pode levar a conclusões equivocadas — especialmente quando se ignora o papel da inflação nessa equação.

A Selic não cai no vácuo. Ela responde, principalmente, ao comportamento da inflação e às expectativas futuras. Quando o Banco Central inicia um ciclo de queda de juros, o recado implícito é claro: a inflação está, de alguma forma, sob controle ou caminhando para níveis mais aceitáveis. E isso muda completamente o jogo.

Juros mais baixos reduzem o custo do crédito, aumentam a liquidez na economia e ampliam o acesso ao financiamento imobiliário. Na prática, mais pessoas passam a ter capacidade de compra. Isso, por si só, já cria um ambiente mais favorável para vendas. Mas o efeito mais relevante, e menos discutido, está na mudança de comportamento do capital.

Durante ciclos de juros elevados, o dinheiro tende a se concentrar em ativos financeiros de baixo risco e alta rentabilidade — especialmente renda fixa. O investidor não precisa se expor ao risco imobiliário quando consegue retornos expressivos com liquidez e previsibilidade. Quando os juros começam a cair, esse cenário muda. O prêmio da renda fixa diminui, e o capital começa a buscar alternativas que protejam patrimônio e ofereçam retorno real.

É nesse momento que o imóvel volta com força para o radar.

E não apenas como ativo de uso, mas como instrumento de proteção. Historicamente, o mercado imobiliário tem uma característica central: ele tende a acompanhar — e, em muitos casos, superar — a inflação ao longo do tempo. Isso acontece porque o imóvel carrega consigo o custo de reposição. Terreno, mão de obra, insumos, regulação — tudo isso é impactado diretamente pela inflação. O preço final, inevitavelmente, absorve essa pressão.

Ou seja, enquanto ativos financeiros podem sofrer corrosão real em determinados ciclos, o imóvel, quando bem localizado e bem posicionado, tende a preservar valor.

Mas é importante fazer um ajuste fino nessa leitura. Imóveis não sobem automaticamente com a inflação no curto prazo. O que existe é uma correção estrutural ao longo do tempo, muito mais ligada ao custo de construção e à escassez de oferta do que a um índice específico mês a mês. Por isso, quem entra no mercado esperando ganhos imediatos baseados apenas na queda da Selic costuma se frustrar.

Outro ponto crítico é entender que nem todo imóvel reage da mesma forma. Regiões com excesso de oferta, produtos mal posicionados ou baixa liquidez podem atravessar ciclos de juros baixos sem apresentar valorização relevante. Por outro lado, ativos bem localizados, com demanda consistente e oferta restrita, tendem a capturar esse movimento com mais intensidade.

Para incorporadores e loteadores, o cenário de queda de juros também traz oportunidades estratégicas. O acesso a funding se torna mais viável, o custo de capital diminui e a velocidade de vendas tende a aumentar. Mas isso não elimina a necessidade de inteligência financeira. Pelo contrário: em um ambiente mais líquido, a diferença entre quem cresce com estrutura e quem cresce no improviso fica ainda mais evidente.

Já para corretores e profissionais comerciais, entender esse contexto deixa de ser diferencial e passa a ser obrigação. O cliente de hoje está mais informado, mais comparativo e mais sensível ao cenário macroeconômico. Vender imóvel sem conseguir explicar o impacto dos juros, da inflação e do crédito é, na prática, perder relevância na mesa de negociação.

O mercado imobiliário não é isolado. Ele é profundamente conectado ao sistema financeiro. E quem entende essa conexão consegue não apenas antecipar movimentos, mas também capturar oportunidades que passam despercebidas pela maioria.

A queda da Selic, portanto, deve ser vista como parte de um ciclo maior — onde inflação, crédito, custo de construção e comportamento do investidor se entrelaçam. Simplificar essa dinâmica é confortável, mas perigoso.

Porque no fim, o imóvel não responde à Selic. Ele responde à realidade econômica.

* As opiniões expressas pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a visão do Papo Imobiliário.

Katya Treiger
Especialista em Funding Imobiliário, sócia da Ville Capital e Colunista do Papo Imobiliário.

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