O Brasil encerrou 2025 financeiramente tensionado. Segundo a Serasa Experian, 81,2 milhões de brasileiros estavam inadimplentes. O número equivale a quase metade da população adulta. O estoque das dívidas ultrapassou R$ 518 bilhões e cresceu 8,85% em doze meses.
Não é apenas estatística. Quando essa magnitude se consolida, o fenômeno deixa de ser individual.
Mais de 22% das dívidas estão ligadas a serviços essenciais. Energia, água e gás tornaram-se vetores de negativação. Quando contas básicas entram no mapa da inadimplência, a crise deixa de ser comportamental e revela compressão estrutural de renda.
O perfil demográfico aprofunda o alerta. A maior concentração está entre 41 e 60 anos, faixa que concentra renda, consumo e crédito. Quando o núcleo produtivo entra em inadimplência, o impacto se espalha pela cadeia econômica e reduz o crescimento potencial.
Houve resposta regulatória. A Lei 14.690 limitou o rotativo do cartão, impedindo que a dívida ultrapasse o dobro do valor original. É uma correção relevante. Mas regula o efeito, não a causa: custo de vida elevado e renda pressionada.
O paradoxo permanece. Enquanto o país bate recorde de inadimplência, milhões desejam investir. Há aspiração por acumulação patrimonial. Falta base macroeconômica consistente para sustentá-la.
A era do vermelho não é apenas financeira. É institucional. Naturalizamos juros elevados e spreads amplos como se fossem inevitáveis.
Não são inevitáveis. São escolhas.
O Brasil enfrenta uma decisão silenciosa. Ou transforma essa tensão em inflexão estrutural, com eficiência produtiva e crédito racional. Ou continuará ampliando estatísticas enquanto encolhe poder de compra.
A dívida é numérica. O problema é estrutural.
E estruturas não mudam com discursos. Mudam com estratégia.
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