Desdolarização com a China: o risco geopolítico que o Brasil não pode ignorar

Date:

Durante décadas, o dólar americano deixou de ser apenas a principal moeda do comércio internacional para tornar-se um dos pilares da influência global dos Estados Unidos. Sua predominância não representa apenas eficiência financeira; ela sustenta parte significativa da arquitetura econômica construída após a Segunda Guerra Mundial, fortalece o sistema financeiro americano e amplia a capacidade de Washington de exercer influência política e econômica ao redor do planeta.

É justamente por isso que o avanço das operações comerciais entre Brasil e China liquidadas diretamente em real e yuan precisa ser analisado com muito mais profundidade do que sob a ótica da redução de custos cambiais.

Sob o aspecto empresarial, utilizar moedas locais pode representar ganhos operacionais legítimos. Empresas economizam na dupla conversão de moedas, reduzem custos financeiros e tornam determinadas operações mais eficientes.

Entretanto, na geopolítica, percepções frequentemente possuem peso maior do que intenções.

E é exatamente aí que reside o risco.

Hoje, o Brasil ocupa uma posição privilegiada no cenário internacional. A China é seu maior parceiro comercial e absorve grande parte das exportações brasileiras de soja, minério de ferro, petróleo e proteínas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos permanecem como um dos principais investidores no país e continuam sendo parceiros estratégicos em setores de altíssimo valor agregado, como tecnologia, defesa, indústria aeronáutica, inteligência artificial, infraestrutura digital, energia, mercado financeiro, propriedade intelectual e inovação.

Poucos países conseguem manter relações econômicas tão relevantes com as duas maiores potências do planeta.

Essa posição, contudo, exige equilíbrio.

Nos últimos anos, a rivalidade entre Washington e Pequim deixou de ser apenas comercial. Trata-se de uma disputa pela liderança econômica, tecnológica, militar e política do século XXI.

Hoje, semicondutores, inteligência artificial, computação quântica, satélites, telecomunicações, cabos submarinos, energia, cadeias globais de suprimentos e minerais críticos fazem parte de uma mesma estratégia nacional.

Terras raras, lítio, nióbio, grafite, cobre, cobalto e outros minerais estratégicos passaram a ser considerados ativos de segurança nacional. São eles que alimentarão a indústria de veículos elétricos, sistemas militares, baterias, computadores, radares, equipamentos aeroespaciais e praticamente toda a infraestrutura tecnológica das próximas décadas.

Nesse ambiente, cada movimento diplomático passa a ser cuidadosamente observado.

A expansão da chamada desdolarização, especialmente quando associada aos BRICS e à crescente aproximação econômica entre Brasil e China, dificilmente será interpretada em Washington como uma simples inovação financeira.

Ainda que essa não seja a intenção brasileira, a percepção pode ser de um lento reposicionamento estratégico.

E essa percepção pode produzir consequências concretas.

Os Estados Unidos vêm demonstrando, de forma cada vez mais explícita, que tarifas comerciais passaram a integrar sua política externa. O comércio deixou de ser apenas uma questão econômica para tornar-se instrumento de defesa dos interesses estratégicos americanos.

Recentemente, a possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros voltou ao debate diplomático. Paralelamente, Donald Trump voltou a defender medidas extremamente duras contra países que adotem impostos considerados discriminatórios contra empresas americanas de tecnologia, chegando a mencionar tarifas de até 100% sobre exportações provenientes desses países.

Essa mudança de postura revela uma nova realidade.

Hoje, decisões envolvendo tributação de big techs, relações comerciais com a China, acesso a minerais estratégicos, investimentos em infraestrutura digital e mecanismos alternativos ao dólar passaram a ser analisadas dentro de uma única equação geopolítica.

O Brasil discute, simultaneamente, maior integração financeira com a China, fortalecimento dos BRICS, mecanismos de liquidação fora do dólar, regulação das plataformas digitais e tributação das grandes empresas de tecnologia.

Cada uma dessas iniciativas pode possuir fundamentos técnicos próprios.

Entretanto, vistas em conjunto por Washington, podem construir uma narrativa completamente diferente: a de um país que estaria, gradualmente, deslocando seu eixo estratégico.

Na política internacional, crises raramente surgem por causa de uma única decisão.

Elas normalmente são resultado da acumulação de sinais.

O Brasil possui interesses legítimos em ampliar seu comércio com a China. Deve continuar fazendo isso.

Da mesma forma, possui total soberania para discutir seu sistema tributário, sua política digital e seus mecanismos financeiros.

O desafio consiste em evitar que essas decisões sejam interpretadas como parte de um alinhamento geopolítico automático com uma potência que hoje representa o principal competidor estratégico dos Estados Unidos.

Essa distinção é fundamental.

Os Estados Unidos continuam sendo um dos maiores investidores na economia brasileira, importante fonte de tecnologia, parceiro histórico da indústria aeronáutica, grande mercado para produtos manufaturados brasileiros e protagonista na geração de inovação científica, financeira e industrial.

Ao mesmo tempo, o Brasil depende da China para parcela significativa de seu comércio exterior.

Escolher um lado seria um erro.

Mas transmitir, ainda que involuntariamente, sinais de que essa escolha já estaria sendo feita pode ser igualmente prejudicial.

A maior força da diplomacia brasileira sempre foi sua capacidade de dialogar simultaneamente com diferentes centros de poder.

Foi essa tradição que permitiu ao país construir relações sólidas com Estados Unidos, Europa, China, Oriente Médio e América Latina, preservando sua autonomia sem abrir mão da credibilidade.

Essa característica nunca foi tão importante quanto agora.

No mundo contemporâneo, moedas, minerais raros, inteligência artificial, tarifas comerciais, tecnologia, defesa e política externa passaram a integrar uma única disputa pela liderança global.

Por isso, a desdolarização deixou de ser apenas um mecanismo financeiro.

Ela passou a representar uma mensagem política.

E, em um cenário internacional cada vez mais polarizado, talvez o maior desafio brasileiro não seja aprofundar suas relações com a China, mas fazê-lo sem comprometer a confiança estratégica construída ao longo de décadas com os Estados Unidos.

A história demonstra que grandes potências raramente reagem apenas às intenções declaradas. Elas reagem aos sinais.

E, quando esses sinais são interpretados como uma mudança de posicionamento estratégico, a resposta pode não vir em discursos diplomáticos, mas em tarifas, restrições comerciais, barreiras regulatórias e redução dos investimentos.

Para uma economia aberta como a brasileira, preservar o equilíbrio entre seus dois maiores parceiros estratégicos talvez seja menos uma questão de política externa e mais uma questão de interesse nacional.

Shalom Confessor
Shalom Confessor é executivo da indústria aeronáutica, consultor de negócios internacionais e mestre em Sciences of Management pelo Indiana Institute of Technology (EUA), com formação executiva em Strategy Execution pela Harvard Business School. Graduado em Relações Internacionais, escreve sobre Diplomacia Comercial e Cultural, Política Externa, Gestão Estratégica, Relações Institucionais e Teologia. Escreve de Daytona Beach, Flórida, Estados Unidos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

- Patrocinadospot_imgspot_img

Compartilhar o Post:

Assinar

::: Patrocinado
- Patrocinado -
Powered by GetYourGuide

Popular

- Patrocinadospot_imgspot_img

Relacionados
Relacionados