Sob o pretexto da “Regulação 4.0”, o governo mineiro pretende concentrar em Belo Horizonte toda a regulação do SUS — decisão que acende o alerta entre profissionais, prefeitos e especialistas sobre o risco de desmantelamento da saúde regional.
Em nome da eficiência, o Estado de Minas Gerais prepara uma das maiores reconfigurações do SUS em sua história recente: a criação da Central de Operações da Regulação Estadual (CORE), com sede em Belo Horizonte, prometendo reunir em um único ponto o controle de leitos, exames e transportes de pacientes em todo o território mineiro.
O projeto, batizado de “Regulação 4.0”, foi apresentado pelo subsecretário de Regulação da Secretaria de Estado da Saúde, Renan Guimarães, durante audiência pública na Assembleia Legislativa em 16 de outubro. À primeira vista, o discurso é sedutor: tecnologia, inteligência artificial e integração de dados. Mas, por trás do vocabulário futurista, profissionais e gestores regionais enxergam um movimento perigoso — o esvaziamento das centrais regionais e a ruptura de um dos pilares do SUS: a descentralização.
O Coração que Querem Transferir para a Capital
O Memorando nº 73/2025, assinado pelos coordenadores das macrorregiões de saúde de Divinópolis, Teófilo Otoni, Montes Claros, Governador Valadares, Ponte Nova e Ipatinga, confirma oficialmente a decisão: a CORE substituirá todas as centrais macrorregionais e deverá entrar em funcionamento no primeiro semestre de 2026. Os próprios coordenadores, em documento interno, declararam oposição ao projeto, alertando que “a centralização da regulação de 853 municípios em um único local comprometerá a equidade do acesso e a agilidade nas decisões”.
Em carta aberta, dezenas de profissionais de regulação reforçaram o mesmo temor. Para eles, a proposta é “retrocesso travestido de modernidade”. A crítica é direta: um sistema de saúde não se gerencia apenas com dados e algoritmos. É preciso proximidade, empatia e conhecimento territorial — atributos que se perdem quando decisões sobre internações e transferências passam a ser tomadas a centenas de quilômetros de distância.
A Regulação não Cria Leitos — Apenas revela o Vazio
Durante a audiência pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) que debateu o projeto Regulação 4.0 em 16 de outubro de 2025, o caso de um paciente que aguardou 22 dias por um leito de UTI foi usado como exemplo de falha no modelo atual. Mas os profissionais explicam: o problema não foi a regulação, foi a falta de leitos habilitados.
O sistema SUSFácil, hoje operado de forma regionalizada, apenas organiza o que existe — e quando há pouco, a fila cresce. A centralização, nesse contexto, não atacaria a raiz da crise, apenas mudaria o endereço da espera.
Segundo dados de consórcios regionais, Minas Gerais tem um déficit estimado de 2.500 leitos hospitalares SUS, especialmente em alta complexidade. Nenhum software — por mais inteligente — resolverá essa ausência estrutural.
O Fantasma do “Call Center da Saúde”
O argumento de que a Inteligência Artificial tornará o processo “mais eficiente” divide opiniões. A tecnologia, admitem os servidores, pode apoiar a priorização de casos e a integração de dados.
Mas a regulação é, antes de tudo, um ato de cuidado. Transformá-la em um grande call center distante, sem vínculos humanos, seria reduzir a saúde pública a um fluxo administrativo automatizado.
E a experiência nacional é clara: nenhum estado grande — nem São Paulo, Bahia ou Rio de Janeiro — conseguiu operar com centralização total. Todos mantêm estruturas regionais para garantir o olhar local e a capacidade de resposta imediata.
Um Projeto que Pode Aumentar Desigualdades
Os críticos apontam um efeito colateral previsível: o aprofundamento da desigualdade regional.
Municípios pequenos, como Teófilo Otoni, Barbacena e Valadares, perderiam autonomia e acesso direto às decisões. Grandes cidades, como Belo Horizonte e Uberlândia, com redes próprias, tenderiam a manter privilégios operacionais.
O resultado seria uma fragmentação ainda maior, contrariando o princípio da equidade previsto na Constituição e nas diretrizes do SUS.
A Solução Real está no Território, Não na Nuvem
A defesa dos profissionais é pragmática: fortalecer as centrais regionais, abrir novos leitos, credenciar hospitais privados e investir na infraestrutura hospitalar de retaguarda.
O que falta não é conectividade, é capacidade instalada. Minas não precisa de um “QG digital” em Belo Horizonte, mas de um SUS que pulse em cada macrorregião, capaz de decidir com autonomia e humanidade.
O Que Está em Jogo
Mais do que um embate técnico, o que se desenha é um conflito de modelos de gestão pública: de um lado, a lógica empresarial da centralização de processos; de outro, a tradição constitucional da descentralização solidária do SUS.
A escolha, portanto, não é apenas entre inovação ou tradição — é entre controle e cuidado, algoritmo e empatia, eficiência e equidade.
O futuro da saúde pública mineira depende de entender que modernizar não é concentrar. É distribuir com inteligência, investir com justiça e planejar com sensibilidade territorial.
Panorama
Minas Gerais tem 853 municípios, 853 realidades distintas e milhões de histórias que não cabem em uma única tela.
A saúde, como a vida, é feita de proximidade.
E um coração, como lembram os reguladores, não pode bater em um só lugar.



