Eduardo Real havia acabado de chegar do trabalho, em 2011, quando se viu sequestrado dentro de sua própria casa e levado por um pastor evangélico para um destino desconhecido. Semanas antes, ele decidiu pedir ajuda à família por conta de problemas com o uso de cocaína. Não imaginava que a “ajuda” viria em forma de ruptura violenta com sua rotina e seus laços afetivos. Arrastado contra a vontade, sem respostas sobre o local para onde era conduzido, ele se deparou pela primeira vez com uma comunidade terapêutica.
“Fui internado involuntariamente, mediante sequestro. Acordei dentro de uma instituição, na cidade de Cotia (SP), numa área bem rural. Meses depois que fui entender onde eu estava”, conta. Ao despertar, o rapaz de 24 anos se descobriu em um galpão com outros 80 homens, de idades variadas. Os internos eram acomodados em beliches, separados por cerca de um metro. No local, havia apenas uma porta trancada e janelas com grades.
Naquele ambiente abafado, Eduardo passaria os próximos nove meses de sua vida. “Lá fedia muito. No fundo tinham três banheiros, sem porta, porque alguém já havia se suicidado lá dentro. A gente fazia ‘necessidade’ na frente de todo mundo”, relembra. Ao lado dos banheiros, ficava o local que ele mais temia: o quartinho de oração, onde eram aplicadas as punições. “Um dos castigos era espancamento, ou manter a pessoa isolada escrevendo versículos, ou sem poder comer e dormir. Outro era a privação de sono: ligavam uma caixa de som com música evangélica e a pessoa não podia dormir por um ou dois dias”.
Tortura psicológica, imposição religiosa, violência física e distanciamento da família fizeram parte das experiências pelas quais Eduardo passou em suas 14 internações em instituições como essa. Longe de “curar o vício”, os traumas sofridos desde a primeira reclusão o levaram ainda mais ao uso problemático das drogas. “Minha porta de entrada para o crack não foi a cocaína nem a maconha, foi a violência que eu passei numa comunidade terapêutica”, afirma à Radis. Hoje ele é membro do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas (MNVCT) e denuncia que essas instituições atuam como “novos manicômios”.
Por definição, as chamadas comunidades terapêuticas (CTs) são instituições privadas, a maior parte delas religiosas, que acolhem pessoas que fazem uso problemático de álcool e outras drogas. Contudo, por trás da fachada de “acolhimento”, elas se utilizam da privação de liberdade, promovem castigos e tortura, impõem visões religiosas e exploram o trabalho, por vezes em regime análogo à escravidão. Essas são algumas constatações do Relatório de Inspeção Nacional em Comunidades Terapêuticas, publicado pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2025.
Na visão de Pedro Antunes da Costa, professor da Universidade de Brasília (UnB) e um dos coordenadores da Campanha Nacional contra as CTs, essas instituições são o “carro chefe” da contrarreforma psiquiátrica. “As comunidades terapêuticas sintetizam o que têm sido os retrocessos no campo da saúde mental”, ressalta. Mais do que isso: elas também são um espelho do Brasil, ao unir elementos de quatro instituições presentes na história brasileira. “Elas se apresentam como esse amálgama de manicômios, prisões, igrejas e senzalas, uma síntese do que o Brasil tem sido, de como ele trata determinados segmentos da própria população”.
No marco dos 25 anos da Lei 10.216 de 2001, Radis mostra como as comunidades terapêuticas ferem os princípios da chamada Lei da Reforma Psiquiátrica, que definiu os direitos das pessoas em sofrimento mental e ajudou a estruturar o cuidado em liberdade no SUS. Denúncias trazidas por diferentes relatórios de inspeção nessas instituições e histórias de pessoas que já passaram pela internação revelam que os manicômios continuam vivos no Brasil, com outros nomes, em lugares que atuam como depósito de gente e não são “terapêuticos” e muito menos “comunidades”.
Continue a leitura no site da Revista Radis.
Confira também a nova edição na íntegra.


Ad

