O município de Porangatu, em Goiás, recebeu as ações do Expresso Chagas XXI, projeto da Fiocruz voltado à mobilização, formação e implementação de ações de prevenção e controle da doença de Chagas. As atividades, realizadas no Centro Cultural de Porangatu foram gratuitas e abertas à comunidade, profissionais de saúde, gestores e lideranças locais. A programação contou com ações de ciência e arte, diálogo com associações de pessoas afetadas pelo agravo e oferta de diagnóstico, entre outras atividades.
A população de Porangatu compareceu em peso às ativdades de conscientização (Foto: Andreza Silva)
A iniciativa teve parceria de equipes locais de saúde, educação, cultura e assistência social, que participaram de oficinas promovidas pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) em agosto, além de cursos de capacitação online, entre agosto e setembro. “A Fiocruz vem para ajudar a informar, mobilizar, conscientizar e alertar nossa comunidade das consequências da doença de Chagas. Muitas pessoas podem estar infectadas e não sabem, porque ainda não apresentam sintomas. A disponibilização dos testes e da indicação de tratamento vai representar melhoria na qualidade de vida dessas pessoas”, frisou a prefeita de Porangatu, Vanuza Valadares, durante a abertura das oficinas.
Para a secretária municipal de Saúde, Flávia Azevedo, o diferencial da iniciativa está na apresentação das informações à população. “O Expresso Chagas é uma tecnologia científica inovadora, em forma de arte e de ciência, destinada a toda a população, desde crianças, adolescentes, até jovens, adultos e idosos”, comentou a médica.
A diretora do IOC e coordenadora do Expresso, Tania de Araújo-Jorge, salientou como a tecnologia pode contribuir para a redução do impacto em saúde pública de Chagas. “Em Goiás já foram identificadas 14 espécies de barbeiros capazes de transmitir o parasito da doença Chagas. Então, conhecer esse inseto e as formas de prevenção e tratamento do agravo são fundamentais, já que não é possível erradicar o vetor da natureza. Mas podemos eliminar Chagas como um problema de saúde pública, a partir da conscientização, já que ainda não há vacina pra doença”, reforçou.
A dinâmica
O Expresso Chagas XXI tem formato cenográfico de trem em alusão ao local de trabalho, entre 1907 e 1909, de Carlos Chagas – cientista do IOC/Fiocruz que descobriu o parasita que provoca a infecção que leva seu sobrenome. A iniciativa tem caráter de tecnologia social, que são técnicas e processos adaptáveis criados com o propósito de solucionar algum tipo de problema social, levando em consideração fatores como simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade e impacto social. As atividades oferecidas são apresentadas em seis vagões.
A visualização de espécies de barbeiros chamou atenção do público (Foto: Andreza Silva)
No Vagão 1 – Associação e Lideranças Comunitárias o público conheceu o trabalho de lideranças e associações ligadas à doença de Chagas. A atividade foi conduzida por duas mulheres portadoras da doença: a vice-presidente da Associação Goiana de Portadores da Doença de Chagas (AGPDC), Maria Andrade, que apresenta o papel das associações no apoio e na mobilização social; ea paciente Marilânia Rios, de Porangatu e integrante da AGPDC, diagnosticada aos 18 anos e que passou por um transplante de coração.
A importância das associações de Chagas foi destacada pela vice-presidente. “A Associação Goiana de Portadores da Doença de Chagas está a inteira disposição para orientar a todos. Quem tiver qualquer dúvida, basta nos procurar. Além disso, faremos de tudo para ajudar quem precisa. Nós vamos atrás de respostas das autoridades, atrás de tratamento. Como liderança, estaremos sempre cobrando e acompanhando os portadores. A gente faz o máximo para conseguir exames e tratamento. Quem quiser, pode se filiar a nossa associação”, frisou Maria Andrade.
O Vagão 2 – Laboratórios e Inovações apresentou atividades voltadas para a pesquisa e o diagnóstico da doença de Chagas. Foram realizados os testes rápidos e gratuitos, além de atividades ligadas à rotina laboratorial. Com a ajuda de microscópios foi possível observar o Trypanosoma cruzi. Os participantes também exploraram conceitos de fluorescência, a partir da utilização de tintas fluorescentes e luz negra, terceiro, tiveram explicações sobre transmissão vertical, que é a possibilidade de o parasito passar da mãe para o bebê durante a gestação ou amamentação.
No Vagão 3 – Brincar e Descobrir o público tece acesso a atividades educativas e artísticas. Uma artéria gigante simulava o interior de uma célula. O espaço Portinari e Saúde exibiu reproduções de obras do artista que abordam a doença de Chagas, além de releituras feitas pelos visitantes, que também puderam registrar frases inspiradas nas imagens. Teve ainda uma área dedicada a narrativas gráficas, com histórias em quadrinhos e carimbos para criação de novas histórias pelos participantes.
Com o Vagão 4 – Vetores, Saúde Única e Ambiente o público pode conhecer os ambientes onde o barbeiro costuma se proliferar. Maquetes ajudaram a compreender as condições que favorecem a presença do inseto. Réplicas ampliadas de barbeiros permitiram observar as características do vetor. O espaço também apresentou uma parede com imagens das 14 espécies de barbeiros encontradas no estado de Goiás, com orientações sobre o que fazer ao encontrar o inseto e a quem comunicar.
Já o Vagão 5 – Bem-estar e Práticas Integrativas foi voltado para iniciativas de bem-estar e saúde integrativa. O público conheceu atividades de aromaterapia e fitoterapia, com demonstrações de fragrâncias e chás. Também teve distribuição de mudas de espécies nativas da região, estimulando o cuidado com o meio ambiente e o vínculo com o território.
O Vagão 6 – Sua Voz proporcionou uma atividade de escuta e avaliação. Os visitantes participaram de uma roda de conversa, relataram suas percepções sobre os vagões e atribuíram notas sobre cada espaço visitado. O público recebe o jornal A Voz do Saruê, com informações e curiosidades sobre o projeto e um certificado de participação.
Porangatu é um termo de origem tupi que significa “bonito e bom”. A cidade localiza-se no norte goiano (Foto: Andreza Silva)
Mais de mil participantes, incluindo cerca 180 estudantes de escolas do município, passaram velos vagões do Expresso. “No projeto, temos como objetivos a educação em saúde e a busca ativa de casos crônicos da doença. Além do evento na área central da cidade, fomos até a zona rural, pois alguns moradores não conseguiriam sair de lá”, enfatizou o coordenador da iniciativa, Roberto Ferreira. “Em parceria com o Lacen conseguimos dar diagnostico preciso para as pessoas e depois encaminhá-las para assistência na Atenção Primária em Saúde da Secretaria de Saúde de Porangatu”, explicou.
“Desde criança a gente ouve falar, mas não temos muito conhecimento. Participando das atividades aprendi muito”, comentou Sandra Rosa dos Santos, moradora da região. Ao todo, foram realizados 404 testes gratuitos para detecção da doença. Desses, 21 deram resultado positivo, a partir exames confirmatórios liderados pelo Laboratório Central de Saúde Pública do estado (Lacen/GO).
“O Expresso Chagas em Porangatu foi maravilhoso. A gente envolveu muitos profissionais de saúde, muitos profissionais de educação. A população veio em peso. Estou muito feliz de ter acompanhado esse trabalho. Este projeto pode virar uma política pública no estado. Creio que Carlos Chagas se orgulharia das pessoas que trabalharam e ainda trabalham nessa iniciativa. Este é um novo momento no enfrentamento da doença de Chagas em Goiás”, comemorou a diretora Tania, emocionada.


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