As comunidades ribeirinhas de Cametá (PA) receberam, na última semana, pesquisadoras da Fiocruz e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) para a produção de um diagnóstico sobre a saúde dos atingidos. Desenvolvida em parceria com o Ministério da Saúde (MS), a pesquisa percorre, nesta primeira etapa, cinco cidades do Brasil para ouvir sobre a realidade da saúde das populações atingidas. Na sequência, o previsto é que o grupo retorne aos mesmos territórios, no próximo ano, para apresentar os resultados da pesquisa e formar vigilantes populares em saúde.
Comunidades ribeirinhas de Cametá receberam pesquisadoras da Fiocruz e do MAB (foto: Victória Holzbach)
De 28 de julho a 1º de agosto, os pesquisadores conversaram com mais de 35 famílias de 15 comunidades de Cametá. No local, o grupo se deparou com os desafios enfrentados pelas comunidades ribeirinhas do Baixo Tocantins que, enquanto ainda enfrentam as consequências da construção da barragem de Tucuruí – inaugurada há mais de 40 anos – lutam contra o projeto da Hidrovia Tocantins-Araguaia.
“Antigamente nós vivíamos da natureza. Agora, a natureza quase já não tem o que nos dar. Praticamente só conseguimos o açaí”, contam Maria Domingas e Manuel Cardoso, ribeirinhos da comunidade de Paruru do Meio. Manuel continua lembrando os impactos da barragem de Tucuruí: “A barragem prendeu nosso peixe. Antes tínhamos tanto que ninguém nem pensava em vender, porque todos tinham de sobra” e complementa: “Com a Hidrovia, vamos ficar sem água. Vai ser só destruição”.
Para Karine Campos, militante do MAB de Belém e responsável por acompanhar o projeto no território, a experiência em Cametá foi fundamental para conhecer a realidade das comunidades ribeirinhas de Cametá e reforçar quanto o projeto da Hidrovia ameaça as suas vidas de diferentes formas. “Escutar as pessoas atingidas em seus próprios territórios nos permitiu compreender que a saúde vai muito além dos sintomas clínicos: envolve o bem-estar coletivo, os vínculos sociais, a relação com o meio ambiente e o direito de viver com dignidade”, pontua ela. Karine também destaca que as vozes das populações ribeirinhas são essenciais para a construção de políticas públicas mais justas, e que “a pesquisa deve sempre caminhar ao lado das populações que vivem os impactos na pele”.
Pesquisadora da Fiocruz Minas, Priscila Neves também alerta para a importância deste processo de escuta, tanto para compreender melhor a realidade, quanto para garantir que os atingidos sejam ouvidos. “Todas as pessoas que conversamos estão muito preocupadas com as consequências ambientais do projeto da Hidrovia. Estas pessoas nunca participaram de espaços de diálogo organizados pelo poder público que expliquem o que vai ser feito e ao mesmo tempo escute o que eles têm a falar, seus medos e preocupações. Nós fomos os primeiros a criar esse espaço de escuta”, relata Priscila.
O objetivo do projeto construído entre o MAB, a Fiocruz e o MS é promover e apoiar ações de vigilância popular em saúde, preparando as populações de cada território para identificar, monitorar, comunicar e registrar quaisquer problemas de saúde na população, especialmente aqueles causados pela construção de barragens ou por eventos climáticos. A iniciativa é coordenada por Guilherme Franco Netto, da Coordenação de Saúde e Ambiente da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz).
Primeira etapa do projeto
A escuta aos atingidos iniciou em junho, na cidade de Canoas (Rio Grande do Sul). No fim do mês de agosto, o grupo desembarca em Jequié (Bahia), no sudoeste baiano e, nos próximos meses, estão previstas as visitas em São Sebastião (São Paulo) e Fortaleza (Ceará). As comunidades ribeirinhas do Baixo Tocantins lutam contra o projeto da Hidrovia Tocantins-Araguaia, que avança sobre os territórios das populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas no Pará.
Nas cidades Cametá, Baião e Mocajuba, atingidos articulados pelo MAB denunciam inúmeras violações: licenciamento atropelado, negação do reconhecimento dos atingidos, invisibilização das mulheres e das comunidades tradicionais, violência institucional e a imposição de uma lógica de desenvolvimento que destrói o que encontra pelo caminho. “Tucuruí deixou um rastro de abandono e a Hidrovia Tocantins-Araguaia ameaça fazer o mesmo”, alerta a nota do MAB contra a Hidrovia.
Adail José da Silva é liderança na comunidade de Mapiraí de Cima. Ele compartilha as angústias que vive a população local: “A Hidrovia não é um bom projeto para nós, enquanto ribeirinhos. Esse é um projeto de morte, porque vai ser um descontrole natural. Todo o resíduo dessas escavações e derrocamentos vão nos prejudicar. Creio que o prejuízo pode ser até maior que os da barragem”, destaca Silva.
O projeto prevê a adequação do Rio Tocantins para permitir a navegação de grandes embarcações ao longo de mais de mil quilômetros, desde Marabá até o porto de Barcarena (ambas no Pará), a fim de garantir o escoamento de commodities como soja e minérios, aprofundando a lógica de avanço do capital sobre os rios da Amazônia. Para isso, será necessário a dragagem do leito do rio, a construção de eclusas e a destruição de formações rochosas com uso de explosivos, como o Pedral do Lourenço, berço de espécies ameaçadas, como o boto-do-Araguaia e a tartaruga-da-Amazônia.


Ad

