Uma pesquisa recente sistematizou os resultados de 15 iniciativas de comunicação comunitária em saúde financiadas durante a pandemia de Covid-19. O estudo analisou como projetos desenvolvidos em diferentes regiões do país fortaleceram a comunicação popular como estratégia no enfrentamento da crise sanitária. A iniciativa foi conduzida pela Fiocruz, em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), com financiamento do governo do Canadá. Em 2022, foram selecionados 15 projetos entre 138 inscritos em uma chamada pública voltada a organizações da sociedade civil. Cada iniciativa recebeu R$ 45 mil para desenvolver ações ao longo de oito meses. O estudo completo foi publicado na Revista Brasileira de Ciências da Comunicação/Intercom.
O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Fernanda Marques, Mariella Oliveira-Costa e Wagner Vasconcelos. Segundo eles, a pandemia evidenciou a importância da comunicação popular e comunitária no Brasil, destacando a necessidade de estratégias adaptadas às diferentes realidades do país, com linguagem acessível e contextualizada.
Comunicação feita com e pela comunidade
O estudo, de caráter qualitativo e descritivo, utilizou observação participante e análise documental para compreender os impactos das ações. Os projetos abordaram temas como vacinação, combate a fake news, saúde mental, segurança alimentar, vigilância em saúde, geração de renda e diversidade sociocultural.
Os resultados mostram que todas as iniciativas utilizaram tecnologias da informação e comunicação e ampliaram suas redes locais de parceiros. A maioria trabalhou com fontes da própria comunidade e priorizou problemas locais, fortalecendo um modelo de comunicação em rede, mais participativo e horizontal, em vez de um modelo apenas transmissivo.
A comunicação popular e comunitária parte do princípio de que o povo é protagonista do processo comunicativo. Mais do que informar, esse modelo busca mobilizar, organizar e fortalecer a atuação coletiva, promovendo participação ativa, senso de pertencimento e corresponsabilidade sobre os conteúdos produzidos.
“Investir em comunicação comunitária aproxima as orientações de saúde da realidade das pessoas. Ela não substitui a comunicação institucional — como campanhas na televisão ou reportagens na imprensa —, mas complementa e reforça as normas sanitárias em diferentes formatos e linguagens, com o apoio de comunicadores populares. A comunicação em saúde funciona melhor quando fala a língua das comunidades”, afirmam os pesquisadores.
De acordo com eles, o surgimento de uma doença grave e ainda pouco conhecida favoreceu a rápida disseminação de desinformação, pânico e a minimização dos riscos, além da circulação de falsos tratamentos. Nesse contexto, a ciência foi fundamental para enfrentar a pandemia, mas a comunicação da ciência e da saúde também se mostrou decisiva.
O grande volume de informações, muitas vezes divergentes, somado à disputa de narrativas no campo político-ideológico, gerou insegurança e dúvidas sobre quais fontes eram confiáveis. Nesse cenário, os pesquisadores destacam que a comunicação comunitária teve papel estratégico.
“Pela proximidade física, social e cultural, os comunicadores comunitários conseguem identificar lacunas de conhecimento e traduzir, junto com a comunidade, o sentido das informações técnicas que circulam”, ressaltam.
Formação e criação de rede nacional
Além do apoio financeiro, os grupos participaram de oficinas online de formação em gestão de projetos e comunicação em saúde. Cada iniciativa também contou com acompanhamento de assessoria sociotécnica especializada ao longo do desenvolvimento das atividades.
Segundo o estudo, o processo contribuiu para fortalecer os vínculos entre a Fiocruz, a Opas e os comunicadores comunitários. A articulação ajudou a consolidar uma rede nacional capaz de atuar em futuras emergências sanitárias e ampliou o potencial de replicação das soluções desenvolvidas em outros territórios.
As oficinas tiveram dois papéis centrais. O primeiro foi promover a troca de conhecimentos, tanto por meio de convidados quanto a partir das experiências compartilhadas pelos próprios responsáveis pelas iniciativas. O segundo foi integrar os diferentes projetos, permitindo que grupos de várias regiões do país conhecessem estratégias criativas e inspiradoras para comunicar temas de saúde.
O intercâmbio ampliou o repertório de práticas de comunicação comunitária. “Quando iniciativas comunitárias trocam experiências, a comunicação em saúde ganha criatividade, força e alcance”, destacam os pesquisadores.
O objetivo das oficinas e da assessoria foi criar espaços de diálogo e troca de saberes entre comunicadores comunitários e profissionais de comunicação da Fiocruz e da Opas. A proposta não se limitou à transmissão de conhecimentos, mas também buscou valorizar a aprendizagem coletiva e o compartilhamento de experiências entre os próprios participantes.
Para os pesquisadores, as oficinas também abriram canais de escuta com as comunidades, por meio de seus interlocutores, contribuindo para a construção conjunta de estratégias de comunicação. Já a assessoria sociotécnica teve como foco acompanhar os coletivos durante a execução dos projetos, oferecendo apoio administrativo e comunicacional sem interferir na autonomia das iniciativas.
Comunicação comunitária amplia alcance das políticas de saúde
A pesquisa também aponta que os comunicadores comunitários desempenham papel decisivo para que as mensagens das políticas públicas de saúde cheguem de fato às pessoas e sejam compreendidas pelas comunidades. Esse tipo de comunicação não substitui os canais tradicionais, mas funciona como complemento e reforço às informações difundidas por rádio, televisão e internet.
Segundo os pesquisadores, diante do crescimento da circulação de informações falsas nas redes sociais, é fundamental que instituições públicas fortaleçam o diálogo com comunicadores comunitários. A aproximação contribui para ampliar a confiança nas orientações sanitárias e facilita o acesso das comunidades a fontes seguras de informação em saúde.
“Não é possível fazer comunicação pública em saúde sem considerar a comunicação comunitária e o conhecimento que nasce das próprias comunidades”, destacam.
O estudo também defende que a comunicação comunitária precisa ser mais valorizada. Entre as medidas necessárias estão a criação de estratégias para garantir sua sustentabilidade, como acesso a linhas de financiamento, apoio à captação e gestão de recursos, além de maior visibilidade para as experiências desenvolvidas e respeito à autonomia desses coletivos.
Outro fato apontado pelos pesquisadores é a necessidade de aprofundar o debate conceitual sobre comunicação comunitária entre os próprios grupos que atuam como comunicadores populares. O objetivo é evitar a simples reprodução de modelos de comunicação de massa, que muitas vezes não dialogam com a complexidade das realidades locais.
Para os autores, instituições de pesquisa em saúde também precisam reconhecer o papel estratégico de uma divulgação científica alinhada às necessidades e às características dos diferentes grupos sociais. Nesse sentido, aproximar ciência, comunicação e comunidades é visto como passo fundamental para fortalecer a comunicação pública em saúde no país.
Caminhos para o fortalecimento da comunicação pública
A pandemia evidenciou que a comunicação em saúde precisa ir além de campanhas massivas. Estratégias comunitárias, participativas e territorializadas demonstraram grande potencial de mobilização e enfrentamento das desigualdades.
Ao sistematizar essas experiências, a pesquisa contribui para o fortalecimento da comunicação pública em saúde, mostrando que investir na comunicação comunitária é investir em democracia, equidade e preparação para futuras emergências.
Desafios e recomendações
Apesar dos avanços, o estudo identificou desafios importantes. A maioria dos relatórios não apresentou processos estruturados de avaliação coletiva das ações, nem detalhou estratégias de replicabilidade. Em alguns casos, as entregas ficaram abaixo do esperado.
Entre as recomendações estão condicionar repasses futuros ao cumprimento qualificado das etapas previstas; garantir prazos adequados para execução dos projetos; reforçar a formação conceitual sobre comunicação comunitária, assegurando que as iniciativas mantenham o protagonismo popular; e desenvolver pesquisas que avaliem diretamente, junto às comunidades, o nível de participação e corresponsabilidade na produção dos conteúdos.
Aprendizados para futuras emergências sanitárias
Entre os principais aprendizados apontados pela pesquisa está a necessidade de que instituições públicas invistam de forma permanente em comunicação em saúde, e não apenas em momentos de crise. Para os pesquisadores, fortalecer o diálogo com comunicadores comunitários é estratégico, já que eles frequentemente atuam como lideranças locais e conseguem traduzir orientações sanitárias para a realidade de suas comunidades.
Outra lição importante é reconhecer e valorizar meios de comunicação presentes no cotidiano de muitos territórios. Canais como rádio-poste e carro de som, por exemplo, ainda desempenham papel fundamental em diversas comunidades para a circulação de informações, mesmo sendo pouco conhecidos em outros contextos.
O estudo também ressalta que iniciativas de comunicação comunitária precisam de apoio financeiro contínuo e capacitação permanente, inclusive para desenvolver estratégias de sustentabilidade. Além disso, o acompanhamento das ações ao longo da execução dos projetos — com participação das próprias comunidades — é apontado como essencial para permitir ajustes e garantir melhor uso dos recursos.
Outro desafio destacado é consolidar uma comunicação que realmente dialogue com a população, em vez de apenas transmitir informações. Em um cenário de multiplicação de fontes informativas, os grandes sistemas de comunicação continuam relevantes, mas é no contato direto com as comunidades que o conhecimento científico tende a ganhar maior aceitação.
Nesse contexto, os pesquisadores observam que não basta apenas traduzir conteúdos técnicos. A efetividade da comunicação depende também da capacidade de gerar identificação com o público. Quando as mensagens dialogam com a realidade e a experiência das pessoas, aumentam as chances de compreensão e adesão às orientações de saúde. , volume: 48 e pode ser conferido aqui.


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