O livro Ainda há tempo, publicado pela Editora Civilização Brasileira, traz um testemunho corajoso da pesquisadora emérita da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, sobre a articulação entre ciência e gestão pública, revelando como a Fundação enfrentou ataques, negacionismo e desafios históricos. Primeira mulher a ocupar o Ministério da Saúde e a presidência da Fiocruz, Nísia narra os bastidores da pandemia como quem esteve no centro das decisões científicas e políticas do país e apresenta uma nova visão de futuro para a saúde brasileira.
Ainda há tempo (Ed. Civilização Brasileira) é o resultado da decisão de alguém que estava no olho do furacão durante a pandemia da Covid-19: Nísia Trindade era presidente da Fiocruz, a maior instituição de ciência e tecnologia da América Latina, quando o cataclismo da saúde pública em escala mundial eclodiu, chegando posteriormente à posição de ministra da Saúde do governo Lula, entre 2023 e 2025. Pela primeira vez, Nísia fala de forma aberta sobre as angústias e as lutas que abalaram a sua vida e a de milhões de brasileiros ao longo de três anos – que pareceram décadas. A obra conta com texto de orelha escrito por Drauzio Varella e pela pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, além de prefácio assinado por André Botelho, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Neste relato, a ex-ministra assume um novo desafio em seu texto: o de se colocar simultaneamente como testemunha, protagonista e analista de uma crise sanitária sem precedentes no mundo. Em oito anos de trabalho, começando na Fiocruz e terminando no governo federal, soma-se a coordenação de ações institucionais, a viabilização da vacinação no país, o trabalho com movimentos sociais e territórios de comunidades e periferias em todo o Brasil, a gestão das centrais de diagnóstico, participação em fóruns de saúde global coordenados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e tantas outras iniciativas articuladas com estados e municípios. Paralelamente, neste mesmo contexto, Nísia enfrentava uma postura anticientífica e o desprezo à vida em meio a uma atmosfera de negacionismo fomentada pelo então presidente da República.
“Ainda que tenhamos expressivo conjunto de trabalhos dedicados ao tema, reconstituir de forma ampla a história da pandemia de Covid-19 no Brasil é uma tarefa ainda a ser empreendida. Minha pretensão foi bem mais modesta: trazer a público meu testemunho como alguém que, de uma posição institucional, procurou contribuir tanto quanto pôde com medidas não farmacológicas, vacinas, testes e medicamentos, e que, pela formação em pesquisa nas ciências sociais, desejava alargar o entendimento sobre a emergência pandêmica”, diz Nísia.
Ela apresenta suas versões como socióloga, sanitarista, gestora, mulher e cidadã politicamente engajada a fim de dividir com leitores a multiplicidade de histórias e perspectivas de um Brasil em transformação. “O silêncio é o pior adversário diante de traumas, ainda mais quando podemos considerá-los coletivos”, afirma Nísia. Por isso, ela escreve este relato, que, entre os desafios de estar à frente da área da saúde em contextos desfavoráveis e novas projeções para um futuro instável, razão e sensibilidade se entrelaçam.
Ciente que novas crises socioambientais no futuro serão inevitáveis, a obra não se limita a expor os absurdos a serem combatidos, mas também propõe uma postura assertiva e esperançosa para enfrentar os desafios. Além de uma recapitulação da história recente, Ainda há tempo é uma chamada ao diálogo e à reflexão.
Serviço:
Ainda há tempo
Autora: Nísia Trindade Lima
364 págs. | R$ 79,90
Editora Civilização


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