Um projeto de cooperação da Fiocruz com instituições do Reino Unido investiga a presença de vírus em roedores da Mata Atlântica no Rio de Janeiro. Além de detectar microrganismos causadores de doenças graves, como hantavírus e arenavírus, os cientistas buscam identificar novos patógenos com potencial de ameaça para a saúde pública. A colaboração envolve a Equipe de Apoio Rápido em Saúde Pública do Reino Unido (UK-PHRST, na sigla em inglês), uma parceria entre a Agência de Segurança em Saúde britânica e a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, financiada pelo Departamento de Saúde e Assistência Social, com recursos de ajuda internacional do Reino Unido.
Como parte desse projeto, de 26 a 30 de janeiro um especialista da UK-PHRST esteve no Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) ministrando capacitação sobre metodologias de sequenciamento genético que ampliam o potencial de detecção de patógenos em amostras de roedores. Representantes do IOC participaram também de encontro de parceiros científicos da equipe britânica, em Brasília, de 3 a 5 de fevereiro. O projeto conta com a colaboração do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC, que atua como referência nacional em taxonomia de reservatórios silvestres junto ao Ministério da Saúde.
“A parceria com a equipe do Reino Unido ajuda o nosso laboratório a se preparar para prováveis e possíveis emergências associadas a vírus transmitidos por roedores, incluindo doenças de alto impacto que já ocorrem no Brasil, como hantavirose e febre hemorrágica brasileira, causada pelo vírus Sabiá. Essa preparação é ainda mais necessária porque estamos vivendo mudanças climáticas e ambientais, que nos colocam cada vez mais perto da nossa fauna”, afirma o pesquisador Jorlan Fernandes, do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses.
“O treinamento em genômica garante que a equipe poderá utilizar novos métodos para buscar vírus emergentes em roedores. Esse trabalho é importante porque nos permite entender quais vírus estão circulando em animais que podem representar risco para os seres humanos. Com essas informações, caso ocorram infecções, esperamos conseguir detectar esses casos em ambientes clínicos”, afirma Daniel Carter, especialista em genômica da UK-PHRST, que ministrou o treinamento no IOC.
Pesquisa em saúde pública
O município de Rio Claro, no sul fluminense, foi escolhido como local de estudo das equipes. Em 2015, a cidade registrou o primeiro caso de hantavirose do estado, que foi confirmado pelo IOC. Desde então, não foram notificadas novas infecções no estado.
“Conhecer os vírus que circulam em roedores nessa região é uma informação importante para a saúde pública, uma vez que existe histórico de ocorrência de hantavírus e presença de roedores que potencialmente atuam como reservatórios desses patógenos e de outros vírus ainda desconhecidos. O município também fica próximo ao Estado de São Paulo, onde foram diagnosticados os únicos casos de febre hemorrágica por arenavírus no Brasil, causados pelo vírus Sabiá, que, até hoje, não tem reservatório conhecido”, destaca Renata Oliveira, chefe do Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses.
A investigação começou em dezembro de 2025, com captura de pequenos mamíferos silvestres. Um laboratório de campo foi montado em Rio Claro para coleta de amostras biológicas seguindo protocolos de biossegurança.
“Estabelecemos áreas de estudo em fragmentos da Mata Atlântica, incluindo trechos de interior de mata e bordas florestais em interface com áreas peridomiciliares. Entre outras espécies, coletamos amostras de roedores silvestres Akodon cursore e Oligoryzomys nigripes, que são reconhecidos como potenciais reservatórios de hantavirus na região”, aponta o pesquisador Bernardo Teixeira, do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios, que coordenou o trabalho de campo e a identificação taxonômica dos roedores silvestres. As atividades contaram com apoio da Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria de Saúde de Rio Claro.
No Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses, a primeira bateria de testes aplicou metodologias de diagnóstico molecular e sorológico para identificar a presença de hantavírus e arenavírus. Durante a capacitação com a UK-PHRST, que contou com a participação de pesquisadores e estudantes de pós-graduação do Instituto, as amostras foram submetidas ao sequenciamento de metagenômica, uma técnica que amplia a detecção de vírus.
“Diferentemente do diagnóstico molecular tradicional, em que nós buscamos detectar genomas de vírus já conhecidos, a metagenômica permite identificar todos os vírus presentes na amostra. A partir disso, podemos descobrir novos vírus com potencial de infecção em seres humanos e nos preparar para possíveis surtos”, explica Jorlan.
O treinamento abordou protocolos com foco em análise de amostra de roedores e uso de aparelho portátil para sequenciamento genético. “Com este equipamento, adquirido por meio do projeto, poderemos realizar análises durante pesquisas de campo, oferecendo uma resposta mais rápida em situações de surto”, ressalta Renata.
Após as etapas laboratoriais, os cientistas realizam análises de bioinformática para caracterizar os vírus identificados por meio da metagenômica. A expectativa é apresentar resultados da pesquisa até março.
Rede de colaboração
Em Brasília, o encontro de parceiros científicos da UK-PHRST discutiu cinco projetos de pesquisa desenvolvidos no Brasil com colaboração da equipe do Reino Unido. O estudo em andamento no IOC foi apresentado por Jorlan Fernandes. O evento debateu ainda propostas para fortalecer as políticas voltadas para prevenção e controle de emergências de saúde pública no Brasil e no mundo.
“Além do avanço científico, a cooperação entre IOC e UK-PHRST contribui para formar redes institucionais, com parceiros nacionais e internacionais que podem atuar juntos no fortalecimento da preparação e resposta a emergências”, ressaltou o coordenador de Relações Internacionais do IOC, Carlos Eduardo Rocha, que integrou a delegação do Instituto no evento.
“Tem sido muito positivo conduzir pesquisas de excelência ao lado de nossos parceiros no Brasil, incluindo o Instituto Oswaldo Cruz, para fortalecer a base de evidências científicas e aprimorar a resposta a surtos nos níveis municipal, estadual e nacional. Nossa reunião em Brasília foi muito produtiva, com discussões ricas tanto sobre o trabalho já realizado quanto sobre os próximos passos. Esperamos dar continuidade a essas iniciativas, à medida que buscamos identificar prioridades de pesquisa compartilhadas e construir caminhos sustentáveis para uma gestão mais bem informada das emergências de saúde pública, tanto em nível local quanto global”, afirmou o diretor da UK-PHRST, Edmund Newman.
A reunião de parceiros da UK-PHRST também contou com participação de representantes da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), do Ministério da Saúde, da Vice-Presidência de Saúde Global e Relações Internacionais da Fiocruz (VPSGRI/Fiocruz), do Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco), do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia), da ProEpi, da Universidade de São Paulo (USP) e da Embaixada Britânica em Brasília, dentre outras instituições.


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