O clima como determinante da saúde das populações e a justiça socioambiental como desafio para a América Latina estiveram no centro dos debates da III Conferência Latino-Americana de Saúde e Educação Ambiental: Clima, Saúde e Justiça, realizada entre os dias 1º e 3 de junho. Organizado pela Fiocruz em parceria com a Rede de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Urbanas (Urban Climate Change Research Network – UCCRN), o encontro promoveu o intercâmbio de experiências entre pesquisadores, gestores públicos e representantes da sociedade civil, com foco na construção de respostas coletivas para os desafios socioambientais contemporâneos.
Palestras e mesas-redondas mobilizaram participantes de diferentes instituições e territórios em torno dos desafios da saúde e da educação ambiental (Foto: Rudson Amorim)
Ao longo dos três dias, a conferência contou com programação híbrida, com palestras, mesas-redondas e apresentações de trabalhos no Auditório Emmanuel Dias, no Rio de Janeiro, e transmissão ao vivo pelo canal do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) no YouTube. Na mesa de abertura, a chefe do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto e coordenadora da conferência, Clélia Mello-Silva, destacou a trajetória do evento, criado em 2021, e a importância de ampliar o diálogo entre diferentes setores diante das questões impostas pelas transformações ambientais.
A diretora do IOC, Tania Araujo-Jorge, enfatizou o compromisso do Instituto com a agenda ambiental e ressaltou que os temas debatidos durante a conferência estão alinhados aos valores que orientam a atuação da unidade. “Igualdade, luta contra as iniquidades, justiça socioambiental e sustentabilidade não são apenas linhas de pesquisa. São princípios que orientam a atuação do IOC e que devem inspirar as discussões e os resultados desta conferência”, pontuou.
Transformação social
A institucionalidade da Educação Ambiental: normativas, políticas públicas e perspectivas futuras foi o tema da primeira palestra da conferência, conduzida pelo diretor do Departamento de Educação Ambiental e Cidadania do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marcos Sorrentino. Na apresentação, o pesquisador defendeu o tema como ferramenta estratégica para enfrentar desigualdades e promover transformações sociais capazes de responder aos desafios ambientais da atualidade.
Mesa de abertura da III Conferência Latino-Americana de Saúde e Educação Ambiental reuniu representantes do IOC/Fiocruz, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Ibama (Foto: Rudson Amorim)
“A crise ambiental é uma crise de valores e de capacidade de pactuação, que revela que ainda não fomos capazes de enfrentar as causas mais profundas da degradação social. Não é um problema de produção ou de produtividade, é um problema de desigualdades”, avaliou. Segundo o palestrante, a educação ambiental deve ir além da transmissão de informações e contribuir para a construção de novos valores e formas de relacionamento com o território, a sociedade e a natureza.
“Nunca tivemos tantas informações sobre a questão ambiental como temos nos dias atuais. No entanto, nunca degradamos tanto quanto degradamos nos dias atuais. Informação não é suficiente. Muitas vezes, o excesso de informação leva à impotência de ação”, declarou. O pesquisador também ressaltou o papel das políticas públicas na consolidação da educação ambiental como uma agenda permanente de Estado. Para ele, iniciativas voltadas à área devem ser construídas de forma integrada e contínua, envolvendo diferentes setores governamentais e a sociedade.
À tarde, o coordenador-geral do Centro Nacional de Educação Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Heitor da Rocha Nunes de Castro, apresentou as ações desenvolvidas pela instituição e complementou o debate sobre o papel de práticas educativas no enfrentamento da crise socioambiental. O palestrante enfatizou a necessidade de atuação direta nos territórios mais afetados por conflitos socioambientais.
“Em um contexto de crise civilizatória, a educação ambiental entra como um componente estratégico para tratar dos problemas e conflitos ambientais. É crucial ir aos territórios, falar com as comunidades, com os grupos sociais, com aqueles que estão mais vulnerabilizados e que estão sofrendo os conflitos e os problemas na ponta”, afirmou.
Educação ambiental na prática
Experiências práticas de educação ambiental lideradas pelo IOC estiveram entre os destaques no segundo dia da conferência. Uma mesa-redonda marcou a aula inaugural do curso Educação e Monitoramento Ambiental, que vai capacitar 48 agentes ambientais, entre moradores de comunidades e profissionais da prefeitura do Rio de Janeiro. A capacitação integra o projeto Rio+Ambiental, desenvolvido pelo IOC em parceria com a Prefeitura do Rio, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto Terra Azul, com financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Mesa-redonda integrou a aula inaugural do curso Educação e Monitoramento Ambiental, iniciativa vinculada ao projeto Rio+Ambiental (Foto: Rudson Amorim)
Clélia Mello-Silva apresentou o projeto e ressaltou a colaboração com as três comunidades que integram a iniciativa: Tubiacanga, Colônia de Pescadores Z-10 e Vila Residencial da UFRJ, situadas na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio. “Realizamos um censo socioambiental e entrevistas com os moradores para construir junto com cada comunidade as melhores alternativas de educação ambiental”, afirmou Clélia, citando diferentes oficinas promovidas nos territórios, tais como produção de ecojóias e de redes de pesca, cultivo e plantio de mudas de manguezal.
A mesa-redonda abordou o papel da educação ambiental nas políticas públicas urbanas. Além de Clélia, participaram: Tatiana Castelo Branco, ex-coordenadora de mudanças climáticas da SMAC-Rio; Irlaine Alvarenga, superintendente de Sustentabilidade do Estado do Rio de Janeiro; e Susanne Daflon, professora e coordenadora do Plano de Logística Sustentável da UFRJ. Márcia Costa, diretora do Centro de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) do Rio de Janeiro, mediou o debate.
O projeto AGente das Águas também foi discutido durante o evento, com foco na cooperação estabelecida com comitês de bacias hidrográficas do estado do Rio. A iniciativa capacita voluntários para monitorar a qualidade da água de rios utilizando uma metodologia inovadora, que combina uso análise de características físicas e químicas da água com avaliação sobre a presença de organismos vivos, como insetos e moluscos aquáticos, que sinalizam para a poluição ambiental.
A pesquisadora Tatiana Figueiredo, do Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do IOC, apresentou o projeto. O debate contou com André Bohrer Marques, do Comitê Rio Dois Rios; Luiza Figueiredo Salles, do Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana; Caroline Teixeira Lopes, do Comitê do Médio Paraíba do Sul; e Lorena Balieiro, da Associação Pró-gestão das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Agevap).
Os representantes dos comitês destacaram o impacto do AGente das Águas nos territórios, fortalecendo a participação social na proteção dos recursos hídricos. “Essa iniciativa formou agentes multiplicadores, ampliou a rede de monitoramento da qualidade da água, a identificação de fontes de poluição e está motivando um programa de saneamento rural”, relatou Luiza.
Da formação de educadores à justiça climática
Abrindo o terceiro dia da conferência, Clélia Mello-Silva conduziu a palestra Formação de educadores ambientais e climáticos, em que refletiu sobre o papel da educação ambiental diante da crise socioambiental contemporânea. Para a pesquisadora, as práticas educativas devem promover mudanças de percepção e comportamento que fortaleçam a cidadania e o cuidado com o planeta.
Primeira mulher negra eleita para a Câmara Municipal de Nova Friburgo, Mayara Felício defendeu a participação popular e o fortalecimento das políticas públicas ambientais (Foto: Rudson Amorim)
“Educação ambiental é uma questão de cidadania planetária, porque é uma questão de pertencimento à Gaia, de pertencer a esse superorganismo”, comentou a pesquisadora, recorrendo ao conceito formulado pelo cientista britânico James Lovelock, que compreende a Terra como um sistema vivo e integrado, no qual seres humanos, demais seres vivos e ambiente mantêm relações de interdependência.
Na sequência, a relação entre educação, participação social e defesa dos territórios pautou a mesa-redonda Educação, justiça climática e territórios sustentáveis, que reuniu os pesquisadores Gloria Marcela Flórez Espinosa, da Universidad de Tolima (Colômbia), Diádiney Helena de Almeida, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Luis Madeira, do Programa Institucional Territórios Sustentáveis e Saudáveis (PITSS/Fiocruz), e Celso Sanchez, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio).
Com base em experiências desenvolvidas na Colômbia, Gloria destacou iniciativas de formação ambiental voltadas ao fortalecimento das comunidades e à valorização dos saberes locais. Para a cientista, a educação ambiental deve estar conectada aos territórios e às realidades vividas pelas populações. “Estamos trabalhando por uma educação ambiental participativa, baseada no diálogo de saberes, que reconhece as situações e as potencialidades dos territórios. Precisamos superar um ‘ativismo cego’ por um ‘ativismo refletido’, construído junto às pessoas e às suas possibilidades”, pontuou.
Diádiney abordou as relações entre saúde, memória e direitos dos povos indígenas. A pesquisadora defendeu que a compreensão da saúde indígena passa necessariamente pela defesa dos territórios e pelo reconhecimento de diferentes formas de produzir conhecimento. “Compreender a saúde indígena exige compreender que ela não se restringe à ausência de doenças, mas está profundamente vinculada à integridade dos territórios e às condições de reprodução da vida coletiva”, defendeu.
Luis Madeira apresentou iniciativas desenvolvidas pela Fiocruz no âmbito do PITSS, voltadas à promoção da saúde e da sustentabilidade em diferentes territórios do país. Já Celso Sanchez compartilhou reflexões sobre educação ambiental de base comunitária e sua contribuição para a construção de respostas coletivas aos desafios socioambientais contemporâneos.
Representantes dos poderes municipal, estadual e federal discutiram os desafios da implementação de políticas públicas ambientais na mesa-redonda Gestão da política pública ambiental nas três esferas do poder. O debate reuniu a vereadora de Nova Friburgo, Mayara Felício, o deputado estadual do Rio de Janeiro, Carlos Minc, e o deputado federal Pastor Henrique Vieira, que compartilharam experiências e reflexões sobre a construção de respostas para a crise climática em diferentes níveis de governo.
Ao abordar os impactos das mudanças ambientais na Região Serrana do Rio de Janeiro, Mayara resgatou a experiência da tragédia climática de 2011 e destacou a importância da memória e da participação popular na construção de cidades mais resilientes. “A memória da tragédia de 2011 deve servir como instrumento permanente para a construção de cidades mais resilientes e seguras. Se ninguém estiver seguro dentro do nosso território, nós falhamos enquanto representantes”, pontuou.
Já o deputado Pastor Henrique relacionou a crise climática às desigualdades sociais, raciais e territoriais, argumentando que seus impactos atingem de forma mais intensa populações vulnerabilizadas e defendendo a construção de respostas baseadas na participação social. “Os efeitos da crise climática não são distribuídos de forma igual. Eles atingem principalmente comunidades periféricas, empobrecidas e negras. Por isso, a construção das respostas precisa ouvir quem vive esses impactos no território”, afirmou. Carlos, por sua vez, enfatizou a contribuição histórica da participação social na elaboração de leis voltadas às áreas de saúde, meio ambiente e direitos humanos, defendendo a aproximação permanente entre parlamento, movimentos sociais e instituições de pesquisa.
Encerrando a programação, o pesquisador Enrique Leff, do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), ministrou a palestra Justiça e educação climática. Referência internacional em ecologia política, Leff também defendeu que a crise climática, ambiental e sanitária deve ser compreendida como parte de uma crise civilizatória mais ampla, associada aos modelos econômicos e de desenvolvimento predominantes. Ao refletir sobre os desafios para a construção de respostas à emergência climática, o pesquisador ressaltou o papel da educação ambiental na formação de novas formas de compreender a relação entre sociedade e natureza, além da importância dos povos tradicionais na defesa dos territórios e da biodiversidade.
Trabalhos premiados
Além das mesas-redondas e palestras, a conferência contou com a apresentação de 21 trabalhos selecionados nos dois primeiros dias de programação. Ao todo, 59 trabalhos foram aprovados para publicação nos anais da conferência, e cinco receberam destaque da comissão avaliadora durante a cerimônia de encerramento. Foram premiados:
• Memórias do porvir — Francisco Marto Leal Pinheiro Júnior;
• ¿Qué tan “verde” es la transición energética? Los efectos de la minería del litio en los salares altoandinos desde perspectivas críticas en salud colectiva — Pablo González Castillo;
• Memória coletiva e injustiça ambiental: uma análise dos impactos climáticos extremos em Petrópolis sob a perspectiva da geração cidadã de dados — Ariel Denise Pontes Afonso;
• Avaliação em educação ambiental e climática: limites e potencial dos indicadores em índices participativos para a tomada de decisão em políticas socioambientais — Tainara Mendes Andrade Soares;
• Vida de passarinho: uma atividade para reflexão dos alunos sobre a importância ecológica, o aprisionamento e o comércio ilegal de aves silvestres — Marco Aurélio Soares Pinheiro.


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