“Há momentos em que repetir o óbvio é o único gesto de coragem intelectual possível.” — Com licença, Dr. Roberto Campos, mas estamos na repetição do desastre anunciado.
O Brasil acorda, em julho de 2025, com a mesma ressaca crônica de sempre: inflação latente, juros desfuncionais, um Congresso que funciona por atrito e uma população anestesiada pela sobrevivência. O debate público não se eleva — se arrasta. O discurso político não inova — recicla slogans de campanhas falidas. E a elite econômica? Finge que governa através de relatórios de mercado.
Neste exato instante, um país com dimensões continentais — e um PIB que já foi promessa — vive o drama kafkiano de ter recursos, talento e território, mas insistir em fórmulas que falharam há 40 anos. O fracasso brasileiro já não é técnico, é teimosia institucionalizada.
O presidencialismo de coalizão, que de coalizão só tem o nome, é uma engrenagem de chantagens recíprocas. Deputados que precisam gastar milhões para se eleger disputam em listas indecifráveis onde ninguém representa ninguém — nem mesmo a si.
O Congresso é, hoje, uma central de distribuição de emendas em tempo real. O orçamento secreto virou orçamento permanente, e o clientelismo virou método de governabilidade. E o povo? O povo virou plateia de CPI transmitida ao vivo como se fosse entretenimento político — quando deveria ser autópsia institucional.
No Brasil, todos são responsáveis, logo ninguém é.
Temos um Estado gordo onde deveria ser leve (tributação e burocracia) e ausente onde deveria ser musculoso (segurança, infraestrutura e regulação funcional). Continuamos cobrando como Suécia e entregando como Somália. A máquina pública virou fim em si mesma, ocupada por apadrinhados e sustentada por uma elite estatal cuja prioridade é a estabilidade do próprio contracheque.
Roberto Campos, com sua ironia refinada, já alertava: o problema não são os corruptos. São os incompetentes inamovíveis, sustentados por um sistema que premia o erro e pune o mérito. A mediocridade, no Brasil, é política de Estado.
Enquanto uma bolha cosmopolita debate ESG, inteligência artificial e criptoativos em brunchs patrocinados por bancos, 70% do país vive sob economia de sobrevivência. O que se chama de “classe média” no Brasil é, na prática, uma multidão endividada com cartão de loja e sem reserva de emergência.
A desigualdade deixou de ser apenas social. É institucional, territorial, cognitiva e tributária. Um Brasil onde quem empreende é punido, quem estuda não é recompensado, e quem tem mérito precisa ir embora para ser valorizado.
O Brasil de 2025 não precisa de uma revolução, mas de um “reset” institucional. Parlamentarismo com voto distrital misto. Reforma fiscal com trava de gastos reais e revisão de renúncias. Reforma política com mandato limitado e fidelidade obrigatória. O resto é perfumaria.
Não haverá crescimento com estabilidade enquanto o Estado for esta colcha de retalhos feita para proteger os de cima do risco e os de baixo da mobilidade. O problema do Brasil nunca foi falta de recursos — foi excesso de desculpas.
Repetimos o óbvio porque o absurdo virou rotina. Somos um país que se tornou especialista em empurrar reformas com a barriga e encarar crises como oportunidade para aumento de impostos.
Não estamos condenados ao fracasso. Mas seguimos voluntariamente hipnotizados por uma falsa normalidade institucional. Não é apenas um sistema falido. É um teatro de estabilidade, onde cada ator interpreta o papel de salvador — com as mãos nos cofres e os olhos nas urnas.
Entre a lanterna na popa e o iceberg à frente, seguimos com o leme trincado e o comandante em campanha.


Ad



Comentários estão fechados.