Nos últimos anos, ouvir a palavra compliance virou lugar‑comum. Tenho carreira consolidada no país e observo como as campanhas institucionais, relatórios sofisticados e discursos empresariais são recheados de promessas sobre ética, transparência e responsabilidade. Mas a pergunta essencial permanece: o que acontece quando o compliance existe no papel, mas falha na prática?
O caso Hapvida, amplamente divulgado pela imprensa e acompanhado de perto por órgãos reguladores e pelo mercado financeiro, ajuda a responder essa pergunta. E o faz de forma desconfortável, porém necessária.
O que vemos não é apenas a crise de uma empresa específica (Hapvida), mas o retrato de um modelo que se repete: crescimento acelerado, pressão da Bolsa, decisões orientadas por números de curto prazo — e, no meio disso, uma perda gradual de coerência entre o discurso institucional e a realidade vivida por clientes, parceiros e empresas fornecedoras.
Quando uma companhia afirma atuar com integridade, isso não se mede apenas por códigos de ética ou selos de governança. Integridade se comprova nas decisões difíceis, especialmente em momentos de crise: na forma como contratos são respeitados, como parceiros são tratados, com o pagamento dos prestadores de serviços e como as informações sensíveis são comunicadas ao mercado e à sociedade.
O problema é que, muitas vezes, quem paga o primeiro preço desse descompasso não são os grandes investidores, mas empresas menores: prestadores de serviços, fornecedores e negócios familiares que dependem da relação com grandes grupos. Para essas empresas, os atrasos nos pagamentos por esse gigante grupo econômico Hapvida, as renegociações forçadas que esmagam as empresas familiares e as mudanças arbitrárias unilaterais não são abstrações financeiras — são ameaças reais à sua sobrevivência das empresas que dependem desta Sociedade Anônima.
O discurso de compliance, quando desconectado da prática, perde sua função social e institucional. Por deixar de proteger — e passa a maquiar. E isso é especialmente grave em companhias que ocupam posição estratégica, regulada e sensível para milhões de pessoas.
Este é o ponto central desta série de artigos que irei publicar: compliance não é marketing, não é narrativa e não é retórica para investidores. Compliance é cultura, ética, transparência, compromisso diário, visível nas escolhas, inclusive quando elas são impopulares ou custosas.
Em apresentação a Investidores (abril, 2026), a Hapvida destacou que:
“Somos a maior operadora de saúde e odontologia da América Latina, com 15,8 milhões de beneficiários e mais de 80 anos de experiência no setor, movidos por um propósito claro de oferecer saúde de qualidade de forma acessível”.
Será?
O caso Hapvida, nesse sentido, funciona como um alerta silencioso ao mercado brasileiro: se a ética corporativa não for tratada como valor estrutural, e não apenas como discurso diplomático, novas crises virão — com custos muito mais amplos do que aqueles registrados nos balanços que são apresentados para os investidores.

FONTE: Essa imagem está disponível no comunicado ao mercado, realizado pela Hapvida em 13.04.2026, disponível em https://api.mziq.com/mzfilemanager/v2/d/6bbd1770-f9f4-44e8-a1b1-d26b7585eec1/5580b043-f8a8-4b7b-00d4-2ad7ea3c0dfa?origin=2
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Rose Giacomin: consultora empresarial, escritora e pesquisadora com sólida carreira na área jurídica. Advogada com vasta experiência em Compliance, Direito Empresarial e Planejamento Sucessório, publicou inúmeros trabalhos, artigos de referência e contribuiu para compêndios especializados. Com profundo compromisso com a responsabilidade social, preside o Instituto IBC e a FIA – Federação Ibero-Americana de Advogados (A.C./MG). É membro de conselhos e instituições nacionais e internacionais relevantes, incluindo o Comitê de Avaliação da revista Síntese en Derecho Empresarial (IOB), a Associação Argentina de Justiça Constitucional (AAJC) e pesquisadora do Instituto de Estudos Políticos e Estatais (AAJC). Ela também é membro do corpo docente da Academia Brasileira de Direito Constitucional, do Conselho Empresarial para a Educação da ACMinas e do Conselho Editorial da Revista Científica do Instituto Ibero-Americano de Compliance.
Reconhecida por suas contribuições acadêmicas e institucionais, recebeu honrarias nacionais e internacionais, incluindo o título de Comendadora e o Prêmio da Cruz Vermelha por Mérito Jurídico na América Latina. É membro da Academia Internacional de Letras Jurídicas, ocupando a cadeira número 51.
É presidenta brasileira da Compliance Woman International, organização que fortalece a presença no ecossistema global de integridade, governança e liderança jurídica.



