Há dados que geram manchetes. Outros, mais perigosos, passam quase despercebidos.
O Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial. É o maior número já registrado. Um crescimento de 24,3% em relação ao ano anterior.
À primeira vista, pode parecer apenas mais um indicador negativo em meio a tantos outros. Não é.
Esse número revela algo mais profundo. Algo estrutural.
Ao longo de 2025, 1.665 empresas entraram em recuperação judicial. Apenas 561 conseguiram sair. A desproporção não é um detalhe técnico. É o sinal de que o sistema deixou de cumprir sua função original.
A recuperação judicial, que deveria servir como ponte para reorganização, começa a se transformar em um espaço de permanência prolongada da crise.
E isso muda completamente a leitura do cenário.
Para entender o que está acontecendo, é preciso voltar a 2020.
Naquele momento, o aumento dos pedidos de recuperação judicial era esperado. O choque era externo, abrupto e generalizado. Empresas foram obrigadas a interromper operações, receitas desapareceram quase da noite para o dia e a incerteza dominava qualquer projeção.
Nos anos seguintes, os números recuaram. Muitos interpretaram esse movimento como recuperação.
Mas havia um equívoco nessa leitura.
A aparente melhora foi sustentada por crédito emergencial, estímulos fiscais e medidas temporárias que injetaram liquidez no sistema. O problema não foi resolvido. Foi empurrado para frente.
Como quase sempre acontece.
Em 2024, o número de novos pedidos já indicava mudança de direção. Em 2025, a tendência se consolidou. O que antes era um efeito conjuntural passou a refletir um problema estrutural.
A principal diferença entre a crise da pandemia e o cenário atual está na origem.
Em 2020, o problema veio de fora. Em 2025, ele nasce dentro do próprio ambiente econômico.
Mesmo com crescimento moderado e níveis de emprego relativamente estáveis, as empresas passaram a operar sob pressão crescente. O custo do capital permaneceu elevado. O crédito ficou mais restrito. A percepção de risco aumentou de forma consistente.
E mercados não ignoram risco. Eles o precificam.
O resultado é conhecido. Juros altos por mais tempo. Crédito mais caro. Menor apetite para financiamento, especialmente para empresas menores ou mais expostas.
Nesse contexto, a política fiscal exerce papel central. Quando há expansão de gastos sem a correspondente ancoragem de expectativas, o efeito não se limita às contas públicas. Ele se espalha por toda a economia.
O aumento do risco percebido eleva o custo do dinheiro. E quando o dinheiro fica caro, a margem de erro desaparece.
Os efeitos desse ambiente não são distribuídos de forma uniforme.
O agronegócio, tradicionalmente resiliente, registrou um aumento expressivo nos pedidos de recuperação judicial. Pequenas e médias empresas, que formam a base da economia brasileira, concentraram a maior parte dos casos.
Isso não é coincidência.
São justamente esses agentes que possuem menor acesso a crédito estruturado, menor capacidade de absorver choques e menor margem para lidar com volatilidade.
Quando o custo do capital sobe, são os primeiros a sentir. E, frequentemente, os primeiros a ceder.
Mas há um dado ainda mais revelador.
Em 2025, cerca de 29% das empresas em recuperação judicial evoluíram para falência. Esse número praticamente dobrou em relação ao ano anterior.
Isso indica que o problema não está apenas na entrada em recuperação. Está no momento em que ela ocorre.
Na maioria dos casos, tarde demais.
A crise expõe uma fragilidade que vai além da macroeconomia.
Ela revela como grande parte das empresas brasileiras ainda opera sem uma estrutura sólida de gestão de risco.
Falta governança. Falta planejamento financeiro de longo prazo. Falta uso consistente de dados para tomada de decisão.
Em muitos casos, a gestão ainda é reativa. O problema só é tratado quando já se tornou inevitável.
Nesse cenário, a recuperação judicial deixa de ser estratégia e passa a ser tentativa de contenção de danos.
O Judiciário, então, assume um papel que não deveria ser seu.
Se existe um ponto positivo nesse cenário, ele está na mudança de comportamento que começa a emergir.
Empresas mais preparadas estão abandonando o modelo reativo e adotando uma postura preventiva.
Isso inclui governança mais estruturada, monitoramento contínuo de indicadores críticos, uso de inteligência artificial para simulação de cenários e decisões baseadas em dados.
Também há uma mudança na forma de financiamento.
A dependência exclusiva de crédito bancário começa a ser substituída por estruturas mais diversificadas, incluindo fundos, capital privado e, em alguns casos, acesso a mercados internacionais.
Essa transição não é trivial. Mas tende a separar, com cada vez mais clareza, empresas que sobrevivem de empresas que desaparecem.
O aumento das recuperações judiciais não é apenas um problema empresarial. É um fenômeno com impacto sistêmico.
Ele afeta o mercado de crédito, encarece financiamento, reduz investimentos e compromete cadeias produtivas inteiras.
Mais do que isso, ele indica que o ambiente de negócios está se tornando mais sensível a erro.
E em ambientes assim, antecipação vale mais do que reação.
A questão central não é se haverá novos ciclos de pressão. Eles são inevitáveis.
A questão é quem estará preparado quando eles vierem.
Porque, no cenário atual, a diferença entre continuidade e colapso não está apenas no mercado.
Está na estratégia.
Brazil reached a historic peak in corporate judicial recoveries in 2025, revealing structural weaknesses in fiscal policy, credit conditions, and corporate risk management. This article explores the transition from pandemic-driven liquidity support to a structurally constrained financial environment, highlighting the role of high capital costs and increased risk perception. It argues that the surge in insolvencies reflects systemic vulnerabilities rather than cyclical fluctuations, and outlines strategic shifts required for long-term corporate resilience.


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