Há um número que deveria incomodar mais gente do que incomoda: 31,27%.
Esse é o percentual da renda anual das famílias brasileiras comprometido com dívidas bancárias em janeiro de 2026, segundo o Banco Central. Exclui financiamento imobiliário. Estamos falando de cartão de crédito, consignado, crédito pessoal, financiamento de carro. O consumo cotidiano financiado a prazo.
O patamar atual está a menos de 0,3 ponto percentual do recorde histórico, registrado em outubro de 2022. E aqui começa a parte interessante.
Outubro de 2022 foi também o mês em que a Selic atingiu 13,75% ao ano, o maior nível em mais de uma década. Como é possível que o endividamento tenha batido o teto histórico exatamente quando os juros estavam no pico?
Passei as últimas semanas analisando a série completa do Banco Central desde 2005, calculando correlações entre o endividamento e três variáveis que todo mundo cita quando fala de crédito: Selic, inflação e desemprego. O resultado contradiz a narrativa mais difundida.
A Selic tem correlação negativa com o endividamento das famílias. E essa relação se intensifica conforme aumenta a defasagem temporal. Com 12 meses de distância, a correlação chega a r = -0,51, com alta significância estatística.
A interpretação mais consistente com a literatura econômica: juros altos freiam a tomada de crédito novo. Mas o efeito é defasado. Famílias com contratos já firmados de consignado, financiamento de veículo ou crédito pessoal continuam comprometendo renda independentemente do que o Copom faz. O freio aparece depois, quando novos contratos deixam de ser assinados.
O desemprego segue a mesma lógica contraintuitiva. Quando sobe, o endividamento tende a cair. Não porque as pessoas param de querer crédito, mas porque perdem o acesso a ele.
Esse tipo de achado não aparece em matéria de jornal baseada em release de consultoria. Aparece quando você pega os dados primários, roda as correlações com defasagem temporal e interpreta os resultados sem viés de confirmação.
Publiquei a análise completa como reportagem interativa. Toda a metodologia está documentada. O código-fonte está aberto. Os dados são atualizados automaticamente via API pública do Banco Central.
Link da reportagem: https://portalf5.github.io/divida-familias-br
Se você trabalha com crédito, macroeconomia ou política pública, vale a leitura. Se não trabalha mas gosta de entender como os números da economia funcionam de verdade, também.
Uma ressalva importante: correlação estatística não é causalidade. Esses valores são ponto de partida para investigação, não conclusão. Mas são um ponto de partida sólido, verificável e reproduzível.
*Wederson Marinho Jornalista e cientista de dados
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