Um novo levantamento hemisférico sobre criminalidade desafia um dos dogmas mais persistentes da segurança pública: o de que o crime prospera onde o Estado está ausente. Na realidade latino-americana, ocorre o oposto. A presença estatal — medida pela densidade de delegacias, escolas e hospitais — está positivamente associada à presença de facções e grupos criminosos que exercem poder local. O que deveria representar a expansão da ordem pública pode, paradoxalmente, significar mais legitimidade e mais espaço para o crime organizado.
Com base no módulo 2020 do Latinobarómetro, que cobre 18 países, o estudo estima que entre 12% e 16% dos latino-americanos vivem sob algum tipo de governança criminal — o equivalente a 77 a 101 milhões de pessoas em números absolutos, ou entre 67 e 90 milhões após reponderação estatística (MRP). Esses dados, derivados do artigo “Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates” (Uribe et al., Perspectives on Politics, Cambridge University Press, 2025), revelam um fenômeno estrutural e duradouro, não um episódio periférico.
As evidências apontam para um paradoxo político profundo: a governança criminal não substitui o Estado — ela coexiste com ele. Em vez de ocupar vácuos de poder, facções e cartéis emergem e se consolidam em territórios onde o Estado também está presente. E não apenas presente fisicamente. Nessas regiões, cidadãos reportam níveis mais altos de confiança no governo local e maior percepção de responsividade institucional. A criminalidade organizada, portanto, não é um sintoma da ausência do Estado, mas uma reação sofisticada à sua presença imperfeita.
Três hipóteses ajudam a explicar esse paradoxo. A primeira, de causa comum, sugere que variáveis estruturais — como urbanização e densidade populacional — atraem simultaneamente o Estado e o crime. A segunda propõe que a governança criminal induz a presença estatal, com governos reagindo a pressões políticas e crises de segurança. A terceira, apoiada por evidência quasi-experimental de Medellín, sustenta que a expansão do Estado estimula a organização defensiva do crime, ao ameaçar suas fontes de renda e sua base social. Nesse cenário, cada nova delegacia ou escola pode inadvertidamente reforçar a necessidade de controle territorial por facções.
O impacto é visível na distribuição espacial do fenômeno: 11% da população metropolitana vive sob governança criminal — proporção semelhante em cidades médias — e 7% em áreas rurais. A ideia de que o crime se limita a periferias urbanas é um equívoco estatístico; o poder criminal tornou-se um componente transversal da ordem social latino-americana.
O relatório que sintetiza esses achados, publicado sob DOI 10.5281/zenodo.17497344, propõe uma mudança de paradigma. Em vez de reforçar o automatismo repressivo, as políticas públicas devem sequenciar a presença estatal. Isso significa priorizar serviços não coercitivos — transporte, limpeza urbana, iluminação pública, regularização fundiária — antes da expansão ostensiva de forças de segurança. Também requer interdição seletiva de mercados ilegais e criação de canais de justiça rápida comunitária, substituindo gradualmente os mecanismos informais de resolução de conflitos hoje controlados por facções.
Essa abordagem desloca o debate da segurança pública para a arquitetura da legitimidade. Onde o Estado é percebido como distante, violento ou burocrático, a facção se instala como mediadora funcional — cobrando “impostos”, garantindo “proteção” e oferecendo respostas rápidas. Nesse contexto, a repressão isolada pode ser autodestrutiva, pois remove a expressão visível da ordem estatal sem reconstruir sua base de legitimidade social.
A governança criminal, portanto, não é um desvio da norma latino-americana: é um espelho das suas contradições institucionais. Ela reflete um Estado que chega, mas não convence; que ocupa, mas não transforma. E até que a legitimidade formal substitua a eficiência paralela do crime, o continente continuará oscilando entre o monopólio da força e o monopólio da obediência.
Citação:
Marinho, W. (2025). Governo do Crime: Por que mais Estado pode significar mais poder para facções. Análise de Prevalência de Governança Criminal na América Latina.
DOI: 10.5281/zenodo.17497344


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