Pra quem não me conhece, sou natural de Minas Gerais, nascido e criado na região leste do Estado: o chamado Vale do Aço (mesmo que com algumas, mas breves mudanças de endereço pelo Brasil e pelo mundo). Tal alcunha se deu pela localização de grandes empresas relacionadas ao produto que forjou o nome da área. Na minha cidade, Ipatinga, passei minha infância e adolescência convivendo com termos que eram comuns nesse lugar: Aciaria, Lingote, Alto-Forno, Laminação, e tudo isso devido à USIMINAS, gigante da siderurgia. Meu pai, que morava no interior de São Paulo na época, chegou por aqui a mais de 40 anos atrás, pra trabalhar nessa empresa por muitos anos e a maior parte de familiares de habitantes dessa localidade seguia o mesmo caminho, vindo de lugares próximos ou distantes pra legitimar a vocação metalmecânica, também com outras empresas presentes: Aperam e Cenibra (essa de celulose). Essa atmosfera foi responsável pela escolha de minha formação: graduação em Engenharia Metalúrgica com mestrado na área de Metalurgia e Minas. O que me fez trabalhar por 10 anos no segmento. Atualmente, boa parte da população ainda mantém ligações com a empresa: seja como colaborador, aposentado ou possui algum familiar que trabalha nela, afinal, ela é uma empresa âncora. A saúde financeira dela reflete diretamente no município.
Hoje, a siderurgia nacional enfrenta um grande desafio: As importações brasileiras do aço produzido na China cresceram 50% em 2023 e têm previsão de subirem mais 20% em 2024, segundo o Instituto Aço Brasil (Iabr), reduzindo a produção nacional em quase 10%. Isso porque o aço de lá chega aqui mais barato em comparação com o mesmo produto produzido no Brasil. Isso se deve a uma série de fatores, tais como: desaceleração da economia chinesa; aliada a uma crise em sua construção civil, subsídio do país asiático para as produtoras locais; práticas ambientais de ESG menos rigorosas que o Brasil e baixa taxa de importação vigente em nosso país. Tudo isso são ingredientes para uma injusta concorrência perante as empresas siderúrgicas brasileiras que são taxadas com altos impostos. As empresas nacionais pleiteiam, junto ao governo federal, a elevação da tarifa de importação para produtos de aço, para pelo menos 25%, para assim tornarem-se mais competitivos em seu próprio país e reproduzir aqui, a taxa que já é praticada nos Estados Unidos, México, União Europeia e Reino Unido. Mas o máximo que conseguiram em outubro do ano passado, foi a elevação de 9,6% para 14%, isso para apenas 12 produtos da cadeia do aço, prejudicando algumas empresas nacionais. Os efeitos dessa conjuntura são extremamente danosos para o setor. A Usiminas, que em dezembro do ano passado, já havia abafado seu alto-forno 1, está cogitando abafar o equipamento de número 2, passando a operar somente com o alto-forno 3, que passou recente por uma grande reforma. Na Gerdau, as demissões já chegam a mil colaboradores e a siderúrgica seguirá avaliando novos ajustes e medidas de adequação do tamanho da operação no Brasil. A Aperam suspendeu investimentos no Brasil. A Arcelormittal estendeu as paradas técnicas de fim de ano de suas unidades de Resende (RJ), Piracicaba (SP) e Juiz de Fora (MG), mas mesmo em meio a desafios, crescimento recente do setor vai permitir pela empresa, um investimento estimado em R$ 25 bilhões no Brasil nos próximos anos.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) iniciou na semana passada, a pedido da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), uma investigação para apurar a existência de dumping nas exportações da China para o Brasil na siderurgia. A apuração pode durar até 18 meses. A morosidade do governo federal atuar em uma solução a curto prazo, por exemplo no aumento da taxação do aço chinês, proporciona a criação de uma atmosfera de incerteza, desespero e apreensão, que é compartilhada por todos que possuem ligação com o segmento: principalmente os colaboradores e suas famílias. Que esse clima torturante possa ter seu fim dentro em breve.




Meu querido Sergio, não é possível a China comprar o minério brasileiro, levar para seu território, beneficiá-lo e, posteriormente, exporta-lo para o Brasil com preço mais baixo que o produto nacional. Mesmo sabendo que o custo brasil é altíssimo, sem ajuda do governo chines, isso não seria possível. Dione Campos de São Caetano do Sul – SP
Parabéns pelo artigo.