Às vezes pode ser perigoso…
Ver fotos antigas,
Ler Clarice Lispector,
Revirar papeis antigos,
Visitar lugares.
A sensação do pretérito imperfeito do indicativo,
A tomada de consciência,
podem estar onde menos se espera.
E aquilo que era para ter acabado, mas não acabou direito,
Ou que procuramos esconder, disfarçar,
Camuflar,
Vem.
Vem com a nostalgia e a madrugada,
Essas aliadas implacáveis na tarefa de fazer sentir.
Às vezes é bom visitar os papeis, as fotos, os cantos da memória,
Só para sentir que não são mais que lembranças e,
Não fosse essa velha mania de bisbilhotar em tudo,
Ou de dormir de madrugada,
Continuariam sem consulta no arquivo morto dessa vida.
Às vezes é bom vermos que temos histórias.
É bom olhar para elas e rir, seja do que foi bom ou ruim.
Bate aquela sensação de que tudo é efêmero.
Encosta na pele certo orgulho das situações vividas.
Às vezes fico imaginando como seria minha história
Se eu tivesse feito dela outra.
Curioso é que, se penso isso dez vezes,
As dez vezes terá uma nova criação hipotética de mim e para mim.
Concluo que o que fiz no momento em que acontecera
nada mais foi do que eu sabia fazer com a experiência que eu tinha,
logo, não preciso julgar se eu estive certa ou errada.
Às vezes passo em frente a uma loja de cosmético e
Meu pensamento vai para uma reminiscência indesejada,
dessas que há muito já concluí que não vale a pena.
Daí me pergunto: Por que estou pensando nisso?
Quem puxou esse fio?
Então percebo que a memória, essa louca,
É a pessoa mais sem limite e sem controle que existe.
Às vezes começo a escrever sobre uma coisa e
Pulo para outras.
Logo eu, amiga de infância da coesão e da coerência.
Não me importo: amizade é aceitação,
E pensamento é amigo também da memória.
Juntamo-nos nesse caldeirão inverossímil: pensamento, memória e eu.
Os dois primeiros sem limite e descontrolados
E a terceira, querendo imitá-los.
As vezes, tudo isso pode ser perigoso.
Lembrar, imaginar, pensar então, nem se fala.
Mas o que seria de nós, sem esses perigos gratuitos da vida?




Sou sua fã! A cada leitura conheço um pouco mais da alma amiga que habita seu ser. Adoro ?
Obrigada, muito bom tê-la como leitora!