Dessas conversas que eu tenho na minha cabeça

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Das conversas que tenho comigo, saio convencida de que sou ora louca, ora santa, ora mundana, ora milagreira, ora fria, ora quente.
É que comigo falam muitas vozes, elas não param, vida própria elas têm.
Eu as refuto, as nego, concordo ou discordo delas. Dificilmente há acordo, mas sempre há expansão.
Das conversas que tenho na minha cabeça, tenho certeza que só as tenho lá. Nenhum outro lugar seria tão insólito, livre, volátil, vácuo e turbilhoso quanto minha mente quando está comigo mesma.
Há dias em que quero calar as vozes, é difícil falar com inúmeras pessoas dentro de si ao mesmo tempo. Mas elas só dão trégua quando me concentro com intensidade em oração ou quando descanso meu olhar em algo de que gosto muito, como o pôr do sol, o mar, ou uma brincadeira de criança.
Nessas conversas, desfio o passado, enrolo o presente, ponho nós no futuro.
Dessas conversas, saem ideias mirabolantes, lágrimas, risos, interjeições e ralhos.
Dessas conversas, que vão de assunto de barzinho a outros nada convencionais, percebo que meu jeito de pensar e ver o mundo não é muito normal também. Ou será que as conversas dos outros com suas próprias cabeças também são assim, um laço em torno da lua, outro em torno do pé, uma volta na cintura e uma ponta que nunca se acha?
Talvez essa anormalidade interna explique o que é tão cobrado externamente, não para esconder, mas para equilibrar aquilo que julgo como fora dos padrões e desejoso de libertação.
Das conversas que tenho comigo mesma, só posso concluir que sempre haverá prosa porque muitos eus existem em mim. Gente que vem das histórias que vivi, gente que vem da minha descendência, gente que estudei, gente com quem convivi, gente com quem interagi, gente que foi, gente que irá chegar, gente que vi ao vivo ou representada, gente da Arte, gente da Música, enfim, é gente que não acaba mais.
Talvez a fotografia da minha cabeça seja assim: milhares de mini-fotografias dançando em torno de palavras com significados que eu construí e outros que são sociais, ambas embaralhando-se, recriando-se e reordenando-se. Ai, que bagunça! Mas se quiser, achegue-se para prosearmos também, uma voz a mais é sempre bem-vinda!

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos
Juliana Ormastroni de Carvalho Santos possui graduação em Letras e Pedagogia, é mestra em Educação e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem. Atua na área de revisão editorial, docência, formação de professores e educação.
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