Acender o perdão

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O nível mais profundo de ressignificação é demonstrar nas palavras e ações que aquilo que doeu um dia, hoje já não dói, nem “desdói”.
Foi assim que ela começou a escrever tentando entender porque era tão brava, arredia, desconfiada. Quem não a conhecesse logo pensaria ser ela um bicho do mato, selvagem e ríspido.
Mas só ela sabia o quanto gostava de mansidão. Se pudesse escolher, sua casa seria um passeio pela campina, à luz do pôr do sol dourado sobre a relva, um lago parado, com um cachorro amigável. E só.
Ah, que desejo imenso ela tinha de lavar com água e sabão essas marcas até o chão ficar liso e limpo! Não mediria esforços para isso. Riu desse pensamento, sabia que marcas indeléveis são eternas (isso é até redundante). Sabia que a limpeza mais profunda não apagaria sua história. Achou isso ótimo: sua história era linda, cheia de vida e emoção, não queria perdê-la.
Ela também não queria ficar só com a parte bonita e desprezar as que não a fizeram tão feliz. Ela precisava conciliar essas partes, afinal de contas, ambas a constituíam. Ela começou a recontar. Recontou as partes tristes procurando dar-lhes novos significados. Isso ajudou, mas não chegou à caixa que alguns chamam de coração. Passou a agradecer, fato que também ajudou, mas ainda não controlava a angústia de quando algo a remetia ao que acontecera. Esquecer ela bem sabia que não conseguiria.
Só lhe sobrava uma tentativa: perdoar. Não as pessoas, nem as situações, pois as primeiras talvez nem se arrependeram, e as segundas são coisas da vida. O perdão deveria ser dirigido a ela mesma. Perdoar-se por ter agido sem se priorizar, sem fé, sem acreditar em si. O caminho do perdão a si não é fácil, é uma aceitação daquilo que mais se quer expulsar. Tarefa muito mais árdua que esfregar o chão. Mas decidiu que aquela era a hora de perdoar e que, assim que começasse, nova luz se acenderia e, como numa procissão em que uma vela acende outra, muitos pontinhos luminosos surgiriam e a conduziriam para o rumo da aceitação e da significação.

Juliana Ormastroni de Carvalho Santos
Juliana Ormastroni de Carvalho Santos possui graduação em Letras e Pedagogia, é mestra em Educação e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem. Atua na área de revisão editorial, docência, formação de professores e educação.
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