A ameaça de Trump ao BRICS: A luta pela supremacia do Dólar no Comércio Global

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A retaliação de 100% de tarifas alfandegárias e a pressão sobre países que tentam escapar do domínio do dólar revelam a fragilidade da ordem monetária atual e as prioridades do governo Trump.

No último sábado, 30 de novembro, o presidente eleito Donald Trump lançou uma ameaça bombástica: se os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) tentarem substituir o dólar por uma nova moeda única ou qualquer outra, sofrerão retaliações severas, com tarifas alfandegárias de 100%. Essa ameaça, rapidamente espalhada pela internet, teve repercussão especial no Brasil, que é um dos grandes apoiadores da ideia de uma moeda comum para o bloco. Além disso, o presidente Lula tem defendido publicamente a substituição do dólar por outras moedas no comércio global, o que agora se torna alvo direto das políticas de Trump.

Uma ameaça direta ao Brasil e ao BRICS

A mensagem de Trump não foi apenas uma ameaça direcionada aos países do BRICS, mas também um recado claro a qualquer nação que busque desafiar a supremacia do dólar no comércio global. O tweet de Trump foi incisivo: “Os países do BRICS estão tentando se afastar do dólar. Enquanto isso, nós, os Estados Unidos, exigimos um compromisso de que eles não criarão uma nova moeda do BRICS, nem apoiarão qualquer outra para substituir o dólar, ou enfrentarão tarifas de 100%.”

Trump seguiu com uma provocação explícita: “Eles podem procurar outro otário. Não há chance de que o BRICS substitua o dólar americano no comércio internacional.” A ameaça reverbera como uma tentativa de manter o status quo do dólar como moeda dominante, mesmo diante das crescentes movimentações para a diversificação das reservas internacionais por parte de países como China e Rússia.

A Impossibilidade de uma moeda BRICS

Embora a criação de uma moeda comum para os BRICS pareça improvável, a provocação de Trump evidencia um ponto crucial sobre a atual ordem monetária. Mesmo que o conceito de uma moeda única do BRICS seja um sonho distante para muitos, ele expõe uma realidade: os países em questão estão cada vez mais buscando alternativas ao domínio do dólar, especialmente após as sanções impostas ao Rússia e a guerra na Ucrânia, que aceleraram essa diversificação.

No entanto, a China, maior economia do bloco, não tem interesse real em uma moeda comum. Ao contrário, o país tem concentrado esforços na internacionalização do yuan, sua moeda local, como alternativa ao dólar. Mas a China enfrenta um grande obstáculo: o yuan não é totalmente conversível. A conta de capital fechada impede sua plena utilização no comércio global, o que dificulta sua ascensão como moeda de reserva. Por mais que a China busque forçar seus parceiros comerciais a utilizar o yuan, a resistência persiste.

O Domínio imbatível do Dólar

O dólar americano continua sendo a moeda dominante no comércio global e nas reservas internacionais. Dados recentes revelam que o dólar ainda representa cerca de 83% das transações de trade finance, enquanto o yuan chinês ocupa a terceira posição, com apenas 5,8%. Em relação às reservas internacionais, o dólar responde por cerca de 60% do total, seguido pelo euro e o iene japonês, enquanto o yuan permanece distante na quinta posição.

Além disso, o dólar continua sendo a moeda preferida para a emissão de dívidas globais. O conceito de offshore dollar – dívidas emitidas fora dos Estados Unidos em dólares – ultrapassou a marca de 13 trilhões de dólares, um crescimento substancial desde 2000, quando era inferior a 2 trilhões. O euro, em comparação, registrou um aumento muito mais modesto, e ainda assim, as dívidas denominadas em dólares continuam a dominar os mercados internacionais.

A retórica de Trump e os riscos de sua Política

As ameaças de tarifas de Trump têm um duplo efeito: por um lado, elas podem dissuadir países como o Brasil de seguir com seus planos de diversificação monetária; por outro, elas reforçam a ideia de que os Estados Unidos não estão dispostos a abrir mão de seu privilégio de ser o emissor da moeda de reserva mundial. Isso, no entanto, pode ser um erro estratégico. Ao continuar pressionando por um sistema internacional dependente do dólar, Trump corre o risco de acelerar a busca por alternativas ao sistema monetário atual.

O uso de tarifas como uma ferramenta de negociação reflete uma postura agressiva e protecionista, característica do governo Trump, mas pode ter efeitos adversos no longo prazo. Em um mundo globalizado e interconectado, as ameaças de tarifas podem levar outros países a buscar formas de proteção contra o domínio do dólar, acelerando, eventualmente, a transição para um sistema monetário mais diversificado.

A hora do Dólar está Contada?

Embora a ameaça de Trump de um “poderoso porrete” sobre os países do BRICS pareça eficaz no curto prazo, ela não resolverá a questão central: o domínio do dólar no comércio global está sendo questionado. Se o dólar ainda representa a maior parte das transações financeiras internacionais, é cada vez mais claro que no longo prazo, os países estão se movendo em direção à diversificação de suas reservas e explorando novas formas de pagamento e liquidação.

O padrão monetário baseado no dólar pode estar mais ameaçado do que Trump gostaria de admitir, e, embora suas ameaças possam adiá-lo, elas não impedirão a inevitável transição para uma nova ordem financeira global. No fim, as ameaças de tarifas podem ser apenas um reflexo da fragilidade do sistema atual, e não uma garantia de sua perpetuação.

Wederson Marinhohttps://linktr.ee/marinhobusiness
Jornalista, empreendedor e Private Broker, especialista em transações estruturadas no Brasil e no exterior. Autor dos livros Investindo no Mercado Imobiliário e O Futuro em Código, atua também como pesquisador nas áreas de finanças públicas, inteligência econômica e urbanização.
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