Em tempos de reordenação geopolítica global, negligenciar a Defesa é abrir mão da soberania. A lição da Operação Surumu, ocorrida em 1993, continua a ecoar como advertência concreta de que a paz não se garante com palavras, mas com presença, prontidão e estrutura.
O Brasil, potência continental com mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres e um litoral estratégico, tem se permitido um perigoso descompromisso com sua capacidade de defesa. Ao mesmo tempo em que o mundo se reestrutura militarmente, com grandes potências reforçando arsenais, atualizando doutrinas e disputando zonas de influência, o Brasil se mantém preso à ilusão da neutralidade geográfica e da estabilidade automática. Não há mais tempo para abstrações: a soberania precisa voltar ao centro da agenda nacional.
1993: Surumu e a doutrina da dissuasão silenciosa
A Operação Surumu, conduzida em setembro de 1993 na região de Uiramutã, extremo norte de Roraima, revelou ao país e ao mundo o valor estratégico da prontidão militar. Deflagrada pelo Exército Brasileiro em resposta a alertas sobre movimentações não identificadas na faixa de fronteira com a Guiana, a operação mobilizou tropas de selva, paraquedistas, aeronaves de transporte e caças da Força Aérea Brasileira. Foi uma demonstração inequívoca de dissuasão territorial, realizada com inteligência, discrição e eficácia operacional.
O estopim foi o relato do piloto civil Dionízio Coelho de Araújo (Doné), que, em 8 de setembro de 1993, ao sobrevoar a região em um Cessna PT-BMR, observou um acampamento militar de grandes proporções nas margens do rio Maú, com movimentação de helicópteros e aeronaves de carga, além da presença de bandeiras estrangeiras. A informação foi imediatamente transmitida ao 3º Pelotão Especial de Fronteira, em Pacaraima. Dias depois, militares relataram a suposta presença de cerca de 600 soldados estrangeiros, em relatos não confirmados oficialmente, mas reforçados por informes paralelos de diplomatas e inteligência de fronteira.
As fontes — não oficiais, porém consistentes — indicavam que os militares em questão seriam norte-americanos e britânicos, supostamente deslocados sob pretexto de missões ambientais e humanitárias. A operação foi lançada com caráter preventivo, sob forma de treinamento conjunto das Forças Armadas. Em menos de 72 horas, o Brasil havia posicionado forças completas no terreno, incluindo 850 paraquedistas, caças F-5M e AMX, unidades de reconhecimento especial, e estabelecido presença ostensiva de quase cinco mil militares ao longo da linha de fronteira. O objetivo não era confronto — era deixar claro que o território nacional não é negociável.
A presença desapareceu com a mesma rapidez com que surgiu. E o Brasil reafirmou seu domínio, sem disparar um tiro.
O pano de fundo: Raposa Serra do Sol, pressões internacionais e o fator nióbio
A operação ocorreu em um momento sensível: o Brasil vivia a transição pós-impeachment de Collor, sob o governo Itamar Franco, enquanto a pressão internacional pela homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol crescia. Lideranças políticas globais — como o então vice-presidente americano Al Gore — defendiam abertamente a criação de grandes reservas indígenas na Amazônia sob justificativas ambientais.
A narrativa corrente em setores estratégicos brasileiros era clara: a homologação de uma reserva contínua, justamente em área de fronteira, abriria margem para perda de controle sobre riquezas minerais estratégicas, como o nióbio, e criaria condições jurídicas e diplomáticas para a internacionalização futura daquela região. O Brasil, por meio da Surumu, optou por afirmar sua autoridade, enquanto adiava a homologação — que só ocorreria em 2005, sob um contexto político distinto.
Ainda hoje, não há comprovação oficial de que a movimentação estrangeira visava a exploração direta de nióbio ou qualquer ação militar ativa. No entanto, em defesa e estratégia, a percepção de ameaça é em si um fator de ação legítima. E foi essa percepção que motivou a resposta rápida e eficaz do Brasil.
De lição a alerta: o que mudou em 30 anos?
O mais grave não é o que a Operação Surumu revelou em 1993 — é o que ela revela por contraste em 2024. O que à época foi feito com eficácia, hoje se tornou, em muitos casos, impraticável. As Forças Armadas brasileiras enfrentam um processo prolongado de sucateamento funcional, alimentado por cortes orçamentários, descontinuidade de projetos estratégicos e a indiferença de setores políticos e sociais.
Em 2024, o Ministério da Defesa operou com R$ 127,9 bilhões, sendo quase 80% consumidos com despesas de pessoal. Para 2025, o valor sobe para R$ 133 bilhões, mas com cerca de 90% comprometidos com gastos obrigatórios. O que sobra para reaparelhamento, inovação tecnológica, manutenção e treinamento é simbólico — e incompatível com um país que se pretende líder regional e protagonista soberano.
Enquanto isso, as potências internacionais rearmam-se em ritmo acelerado. A OTAN retoma protagonismo, Alemanha, Polônia, Suécia e Finlândia investem nos maiores orçamentos militares desde a Guerra Fria, e os conflitos em Ucrânia, Oriente Médio e Ásia-Pacífico provam que a paz é sempre condicional — nunca garantida.
Uma agenda nacional de Defesa para além da caserna
É preciso dizer com todas as letras: Defesa não é tema exclusivo das Forças Armadas. É política de Estado. É soberania. É segurança econômica, ambiental e institucional. E, portanto, deve ser pensada, debatida e priorizada por parlamentares, juristas, empresários, ministros, governadores e formadores de opinião.
A lição de Surumu não é apenas sobre prontidão militar. É sobre a centralidade da presença do Estado em todos os seus instrumentos: jurídico, político, militar e simbólico. A ausência em regiões estratégicas abre espaço para narrativas paralelas, exploração irregular de recursos, influência externa e instabilidade regional.
Em tempos de operações informacionais, guerras híbridas e disputas por controle de cadeias produtivas, manter fronteiras apenas com bandeiras não basta. É necessário garantir capacidade de resposta, autonomia logística e dissuasão confiável.
Conclusão: soberania se exerce, ou se perde
A Operação Surumu foi, à sua maneira, silenciosa. Não produziu heróis midiáticos nem manchetes internacionais. Mas foi uma das ações mais eficazes de afirmação de soberania da história recente do Brasil. Ela provou que o Brasil sabe reagir. A pergunta que agora se impõe é: ainda conseguimos?
A soberania, como ensinava Rui Barbosa, não se improvisa. Exércitos, presença de Estado e prontidão estratégica também não. Está na hora de transformar a memória da Surumu em política de Defesa real, financiada, debatida e operacional.
Porque, assim como nas recentes incursões de Maduro violando nossa fronteira com o trenzinho da alegria do seu exército, talvez não nos reste outra opção senão aceitar as desculpas esfarrapadas do estrangeiro — com um sorriso amarelo e a desculpa diplomática de que não revidamos, não por fraqueza, mas por pretensa gentileza.



