Tempestade em Brasília: O inimigo do meu inimigo é meu amigo?

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Nuvens carregadas sobre o Palácio do Planalto, em Brasilia. Foto DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

A tormenta que se aproxima do Palácio do Planalto e do Congresso promete abalar não apenas as bases daqueles poderes, mas também os alicerces da própria República. É um momento histórico, de enorme temeridade para a nação, mas, vale lembrar que é preciso passar pela tempestade para então viver a calmaria.

O governo petista sempre deu sucessivas demonstrações de que os interesses do partido estão acima dos interesses da nação. Vale tudo para preservar seu projeto de poder. Vale tudo para preservar o partido e seus aliados. “Nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”, afirmou Dilma Rousseff no passado. Por tudo o que temos visto, para eles, também vale fazer o diabo para manter-se no poder.

Na semana passada, a caminho da Rússia, a presidente Dilma Rousseff, que ainda entoava o falso mantra da “oposição golpista”, cometeu um encontro (quase) às cegas com Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal e chefe do Poder Judiciário. O encontro ocorreu na cidade do Porto, em Portugal e não estava previsto nas agendas oficiais de seus partícipes. Esteve também presente na ocasião a figura nefasta do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Ricardo Lewandowski é partidário histórico dos petistas e já protegeu o partido em diferentes circunstâncias. Em agosto de 2007, quando a denúncia da Procuradoria da República sobre o escândalo do mensalão foi convertida pelo STF em ação penal, Lewandowski foi o ministro que mais divergiu do voto do relator Joaquim Barbosa. Foram 12 divergências. Discordou, por exemplo, do acolhimento da denúncia contra José Dirceu e José Genoino por formação de quadrilha.

O malfadado encontro entre a chefe do Poder Executivo e o chefe do Poder Judiciário sucedeu justamente quando a primeira, Dilma Rousseff, foi finalmente envolvida nas denúncias da Operação Lava-Jato, quando os depoimentos de Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, empurraram para dentro da campanha da presidente, pelo menos R$ 7,5 milhões, roubados na Petrobrás. Na ocasião, a governanta nos brindou com a pérola: “Não respeito delator”. Tal afirmação, vindo da presidente, é uma afronta ao império das leis, ao Estado Democrático de Direito e ao próprio Poder Judiciário.

Os tais R$ 7,5 milhões poderão ser incluídos nas páginas de um processo em que o Tribunal Superior Eleitoral questiona a prestação de contas da campanha de Dilma. O julgamento está previsto para setembro. No pior cenário para o governo, o veredicto pode levar até mesmo à destituição de Dilma e do vice-presidente Michel Temer. Dessa decisão caberia um recurso para o STF, capitaneado exatamente por Ricardo Lewandowski. Não é um fenômeno?

Dilma, Lula e o PT acusam a oposição de golpista por defenderem o impeachment, a cassação ou a renúncia da presidente. Não há golpe nenhum nisso. São todos instrumentos constitucionais e parte integrante do processo democrático. Quem hoje chama a oposição de golpista pelos motivos supracitados, defendeu com veemência o impeachment, a cassação ou a renúncia dos ex-presidentes Collor e FHC. Como são coerentes esses petistas, não? Para eles, a democracia só existe quando favorece os interesses do Partido dos Trabalhadores.

10387554_659867304117219_5413314054979834504_nEduardo Cunha e Renan Calheiros: o inimigo do meu inimigo é meu amigo?

Em meio às idas e vindas entre Executivo e Judiciário, o Legislativo não poderia ser poupado. Júlio Camargo, da Toyo Setal, disse em depoimento ao juiz Sérgio Moro, na quinta-feira, dia 16, que pagou ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, US$ 5 milhões em propina. O mesmo Júlio Camargo, já havia feito quatro depoimentos. E negara que tivesse pagado propina a Cunha.

Na segunda, dia 13, tinha sido a vez de Renan Calheiros (PMDB-AL), outro pedregulho incômodo no calçado da governanta, levar uma granada. Também em depoimento à 13ª Vara da Justiça Federal, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, afirmou que o presidente do Senado levava propina por intermédio do deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE).

Em apenas uma semana a carga das delações pareceu virar contra os presidentes da Câmara e do Senado, ambos desafetos no governo Dilma, tendo desde o início da legislatura corrente, imposto sucessivas derrotas aos interesses do Planalto. Se, agora, Paulo Roberto Costa e Júlio Camargo acusam, respectivamente, Renan e Cunha, em depoimento a Sergio Moro, por que não o fizeram antes? Ou mentiram antes ou mentem agora. O que é igualmente grave.

Entendam que não quero aqui proteger um ou outro. Creio que o rigor deve ser o mesmo para quem quer que seja o denunciado. Prevaricou tem que ser punido! Ocorre que é pratica conhecida dos petistas a tática do quanto pior, melhor. Vendo-se em meio a um furacão de denúncias sem nenhuma escapatória aparente, resta apenas tentar puxar a todos para dentro deste mesmo furacão a fim de tentar minimizar a própria culpa e confundir a opinião pública.

Para eles, todas as delações premiadas contra o governo de pouco valeram e devem ser vistas com cautela. Bastou surgir o nome de um desafeto estratégico para a delação magicamente obter o valor uma sentença judicial. Prova disso, o vice-líder do governo na Câmara, Sílvio Costa (PSC-PE), disse hoje que pedirá o afastamento temporário de Eduardo Cunha do cargo de presidente da Câmara. Segundo ele, Cunha não tem condições morais de continuar no comando da Casa.

“Do ponto de vista legal, Cunha tem a seu favor a presunção da inocência, mas do moral, perdeu as condições de ocupar a presidência.” (Deputado Federal Sílvio Costa).

Calma lá! A presidente Dilma e todo o Partido dos Trabalhadores são protagonistas do maior roubo de dinheiro público da história da humanidade e toda menção ao afastamento da presidente é imediatamente chamada de golpismo, mas Eduardo Cunha, desafeto do governo, acusado por um delator que após quatro depoimentos sem nenhuma outra referência ao seu nome, deve ser afastado da presidência da Câmara por não ter mais condições morais para ocupá-la? Que vigarice é essa? Onde está a moral de Dilma Rousseff para ser mantida no cargo? Onde está a moral de qualquer petista para ser mantido no cargo?

Some-se a isso tudo o fato de estar previsto para as 20:30 de hoje, um pronunciamento de Eduardo Cunha em cadeia nacional de TV. Os petistas estão se borrando do que vem por aí. Cunha, naturalmente, anunciou em entrevista coletiva na manhã de hoje o seu rompimento definitivo com o governo e disse que, como político, vai tentar no Congresso do PMDB, em setembro, convencer a legenda a seguir o mesmo caminho.

Cunha reafirmou que há uma tentativa por parte do governo de fragilizá-lo. “Está muito claro para mim que esta operação é uma orquestração do governo”, disse. Ele lembrou que, desde junho, o Executivo iniciou uma ‘devassa fiscal’ contra ele e incluiu seu nome na delegacia de maiores contribuintes do país. O deputado afirmou ainda que a delação de Camargo é “nula” por ter sido feita à Justiça de primeira instância e lembrou que, como parlamentar, tem foro privilegiado e só pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Cunha disse que seus advogados vão pedir a transferência do processo de investigação para o STF.

Se Eduardo Cunha e Renan Calheiros são inocentes eu não sei. Cabe à Justiça provar caso não o sejam. Por outro lado, é notória a atuação do governo para neutralizar seus inimigos neste momento derradeiro. O mês de setembro tem sido referido como deadline da era petista. Simbolicamente é o mês em que começa a primavera no país. Desejo que não seja apenas a estação do ano, mas o fim do longo inverno marcado pela era petista no Brasil.

E sim, se para o governo petista Cunha é um inimigo, até que provem a sua culpa, o terei como um amigo. Não o amigo com o qual sonhei, mas aquele que fará o que precisa ser feito, no momento em que o Brasil precisa de uma atuação enérgica no enfrentamento a um governo autoritário e inescrupuloso, ocupado por pessoas que se julgam acima das leis e que confiam na impunidade ao cometer os seus crimes e proteger seus comparsas. Que caia Cunha e também Calheiros, mas não antes de derrubarem Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores, os verdadeiros inimigos deste país.

 

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