Início Colunistas Pensatempos de um patriota-empreendedor brasileiro no exterior

Pensatempos de um patriota-empreendedor brasileiro no exterior

Há dois anos aceitei o convite para estudar no exterior. Eles estavam interessados no meu trabalho. Ofereceram educação gratuita para mim e minha esposa numa excelente universidade americana, tudo de graça. Mudamos para os Estados Unidos, concluímos o mestrado e abri uma empresa de consultoria no Estado de Indiana. Me associei a bons profissionais, ambiente de negócios seguro e estável e, naturalmente os negócios surgiram rapidamente por aqui. Mas, como um brasileiro patriota que sempre devotou tempo ao estudo do desenvolvimento nacional, da política brasileira, das relações internacionais e, depois de ter devotado 10 anos da minha vida em serviços prestados à nobilíssima Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, instituição da mais alta distinção e que promove o estudo aprofundado do nosso Brasil para melhor serví-lo, me vi tomado por uma uma grande crise de consciência, me senti envolvido por um dilema moral…

Quando iniciei os negócios por aqui, imaginei que em função de, no passado, ter construído um bom relacionamento com o empresariado brasileiro e por ter atuado alguns anos como presidente da Câmara de Comércio Brasil-Moçambique, seria fácil me utilizar do capital-social e político que acumulei ao longo do tempo para atrair empresas brasileiras à canalizarem suas exportações para o pujante, porém conservador, midwest americano. Seria fácil fazer negócio. E foi muito mais fácil do eu eu pensei, só que não da forma que eu imaginava. Por mais que o dólar estivesse favorável, poucas empresas brasileiras estavam pensando em exportar para cá. Os empresários, ao invés de pensar em exportar, estavam me implorando para arrumar uma forma de sair com suas empresas do Brasil. Eles queriam trazer suas empresas para cá. Grandes indústrias, empresas de serviços, produtos já conhecidos pelo mercado brasileiro, startups, empresas inovadoras, gente de bem, todos querendo buscar um porto seguro para o seu negócio no exterior. Foi então que me vi no meio dessa crise de consciência: Será que serei um traidor da pátria se eu viabilizar a vinda de empresas brasileiras para os Estados Unidos? Será que serei responsável pela saída de empregos do meu país? Pela desindustrialização do país? Será que a saída será barganhar empresas brasileiras com o grande capital americano? Isso era tudo contrário ao que eu pensava da vida. O que eu mais queria era ver o meu Brasil forte, se desenvolvendo, gerando empregos e renda. O meu sonho é e sempre será ver o povo brasileiro sorrindo com a prosperidade da dignidade do seu trabalho.

Dentre os negócios que surgiram, uma empresa de aviação brasileira resolveu contar com a nossa consultoria em diplomacia comercial e especular se valeria à pena se transferir para os EUA. Se trata de uma indústria de aeronaves, com mais de vinte anos de existência, fabricante de uma aeronave que é um sucesso e um time de engenheiros de primeira grandeza, com tecnologia e know-how de altíssimo valor e geradora de empregos no Estado de São Paulo. Logo a minha crise aumentou. Será que serei canal para que uma empresa desta grandeza e importância saia do Brasil? Conforme o tempo passou, os negócios ficaram mais sérios, a conversa se aprofundava com a empresa. Fizemos todos os estudos para a transferência da unidade industrial para o Estado de Indiana – USA, tive que me tornar um expert em aviação em seis meses. Revisamos planilhas, buscamos cadeias de fornecedores nos EUA, iniciamos tratativas com as autoridades da FAA – Federal Aviation Administration (órgão semelhante à ANAC no Brasil). As coisas andaram, grupos de desenvolvimento econômico compraram a briga e as autoridades americanas estenderam o tapete vermelho. O CEO da empresa brasileira de aviação visitou o Estado de Indiana com o seu time, e cinco cidades americanas fizeram ofertas e propostas para sediar a empresa, o estado ofereceu isenções fiscais, apresentaram soluções para suprimentos, apresentaram investidores, pagaram jantares caros, pararam aeroportos para nos receber, etc. Fizeram tudo o que puderam para impressionar a comitiva e conquistar o coração do time brasileiro. Hospedei o CEO brasileiro na minha casa por duas semanas enquanto as tratativas se prolongavam, e numa destas conversas, confessei a ele o meu dilema e a minha crise em estar abrindo portas para a saída dele e da sua empresa do Brasil. Ele sorriu e me disse: “Não se sinta mal por isso. Você está salvando a nossa empresa e desta forma poderemos fazer muito mais pelo Brasil do que se fecharmos as portas lá por causa desta crise.” Essas palavras tiraram uma tonelada dos meus ombros. E continuou dizendo: “O custo Brasil e a instabilidade monetária tem tornado difícil programar a nossa produção no médio-prazo, junte à isso, as estradas, burocracia, lentidão nas alfândegas, etc.” Logo, senti que eu estava sentindo uma culpa que não deveria ser minha, mas era tão somente dos nossos governantes (não quero aqui citar nomes) que atrapalhavam o funcionamento de todas as empresas que continuam me procurando para deixar o nosso Brasil.

A verdade, é que nunca na minha vida, em todos os negócios que atuei, eu senti tanta facilidade para fomentar negócios como aqui nos EUA. O ambiente é seguro, o governo busca incentivar e atrair as empresas, tudo é desburocratizado (nem contei que abri a minha empresa em apenas um dia)… Nestes dois anos vivendo por aqui tive a chance de me relacionar com grandes grupos de desenvolvimento econômico americanos e passei a ter o respeito dos seus diretores. Isso só deixa nítido para mim que aqui eu não preciso de padrinho ou influências, nem jeitinho brasileiro. O meu trabalho e as minhas idéias pavimentaram o caminho para o respeito que encontrei aqui. É uma sociedade que valoriza o mérito, o esforço, que busca facilitar a vida do empreendedor e faz questão que as empresas continuem lucrando para gerar emprego e renda. Alguns a chamam de capitalista, como se quisessem embutir algum demérito nisso.

Entretanto, o brasileiro é capaz, é empreendedor, é criativo, é competente e não deveria estar sendo podado ou impedido pelas circunstâncias oriundas da incompetência política. A única saída que muitos empresários têm encontrado, tem sido buscar um ambiente e um solo fértil que os permita germinar, florescer e dar frutos. O custo para isso é alto: saudades de casa, idioma difícil, cultura diferente, comida que não satisfaz, desconforto e a angústia provocada pelo risco de estar apostando num mundo desconhecido. O brasileiro é forte em passar por tudo isso se for esse o preço para vencer. O brasileiro precisa sonhar e precisa de oportunidades… mesmo que seja em outro país. As idéias brasileiras têm que criar asas e conquistar o mundo, representar e fazer bonito lá fora.

Me desculpe, governo brasileiro. Vocês tornaram o custo-Brasil alto demais, a sua ineficiência é deletéria a sua corrupção é imoral e o mundo lá fora é competitivo. Estamos num cenário em que muitos países fazem propostas limpas para atrair as nossas empresas. Eles valorizam o empreendedor. Não se compara com esta sujeira que você nos impõe. Me desculpe governo brasileiro, eu preciso ajudar o empreendedor brasileiro a brilhar no exterior, preciso ajudar dar asas à esperança deste povo. Não sou eu quem está atraindo as empresas para o exterior. São vocês, governo, que estão expulsando-as como personas-non-gratas ao seu território.

E quanto à indústria de aeronaves brasileira que me referi neste texto, com toda a sua propriedade intelectual e patentes, estará representando bonito o Brasil nos Estados Unidos e nos enchendo de orgulho com a sua capacidade tecnológica, talento e criatividade que o governo brasileiro não soube dar valor. Estarão fazendo mais pelo Brasil do que o governo brasileiro. Serão embaixadores da capacidade empreendedora brasileira. Certamente, não será indolor desgarrar a alma e a família do solo-mater para salvar a empresa em além-mar, como se fossem “refugiados” da economia, mas não há mais como ter o governo brasileiro como oponente de cabo-de-guerra. Desta forma, o empreendedorismo no Brasil está fadado ao fracasso.

Enquanto as guerras ideológicas fragilizam a sociedade e divide o espírito brasileiro, os valiosos empregos, talentos únicos e tecnologia nacional vazam pelas fronteiras, talvez para sempre. Parece que permanecemos cegos enquanto esbravejamos uns com outros pelas mídias sociais, tentando defender meias-ideologias que sequer os donos das siglas partidárias acreditam. Espero que esta convulsão social não contamine as próximas gerações e não definhe as esperanças dos nossos bravos empreendedores que ainda lutam para revidar estando no Brasil ou não, e que apesar das múltiplas faces da nossa sociedade – negro, branco, rico, pobre, minoria ou não, juntos reencontremos o mérito da livre iniciativa, da competição, do empreendedorismo.

Compartilhe
Shalom Confessorhttp://www.ibicollaborative.com
É especialista em Diplomacia Comercial e Cultural. Mestre em Sciences of Management pelo Indiana Institute of Technology, EUA, com formação em Relações Internacionais, atualmente é Vice-Presidente da International Business & Investment Collaborative, LLC. Foi presidente da Câmara de Comércio Brasil-Moçambique e Presidente do Instituto Política Global.

Conecte-se

16,985FãsCurtir
2,458SeguidoresSeguir
61,453InscritosInscrever

Mais Lidas

- Advertisement -

Related News

5 COMENTÁRIOS

  1. Estimado Shalom,
    Simplesmente irretocável o seu artigo.
    Consciente, pontual e coerente.
    Parabenizo-o ao mesmo tempo em que lhe desejo pleno sucesso.

    Grande abraço !
    Myrinha Vasconcellos
    Uma vez Adesguiano (a), sempre Adesguiano (a).

  2. Meu Rey
    Parabéns, sempre apostei em você, sabe disso, quantas vezes falamos sobre o despertar de seu talento, o quanto deveria tirar proveito dele, tá aí o resultado.
    Estou muito feliz por ter encontrado seu caminho.
    Belo artigo e vivi com voce parte dele.
    Segue em frente que o sucesso já chegou para voce, pois você merece.
    Parabéns mais uma vez.

Comentários estão fechados.

Compartilhe