Desemprego: e agora?

Por Tania Azevedo Garcia

O trabalho tem importância na formação da identidade social do sujeito. Num sistema capitalista, êxito e sucesso são critérios de avaliação para o reconhecimento social de uma pessoa. Reconhecimento que se desintegra mediante situações de desemprego, trazendo implicações sociais e psicológicas para os sujeitos que a vivenciam.

O desemprego ronda a todos: a quem está empregado, a quem é profissional autônomo ou até mesmo a quem empreende algum negócio. Quem está empregado, tem medo de perder o emprego; quem está saindo de uma formação acadêmica ou entrando no mercado de trabalho tem receio de não conseguir um trabalho; quem é dono de um pequeno negócio também receia a instabilidade. Como um fantasma, especialmente numa situação de pandemia e crise econômica, o desemprego parece surgir de todos os lados e lugares para nos assombrar.

Shakespeare dizia que a vida é um palco e todos os homens e mulheres, meros atores. Além das questões práticas, como a preocupação econômica, a pessoa desempregada perde seu lugar no mundo. É um sentimento de não pertencimento. Seu papel se desintegra, o que pode gerar sentimento de culpa, depressão e ansiedade, agravados pela perda do contato social e do sentido existencial, especialmente para aqueles em que a vida girava em torno do trabalho.

Em minha experiência profissional, durante o longo período em que trabalhei com seleção de pessoas para empresas, por diversas vezes identifiquei em alguns candidatos desconforto, angústia, tristeza, mesmo quando tentavam passar uma imagem positiva, pois é isso que as empresas desejam: pessoas otimistas, produtivas, com “brilho nos olhos”. Esses jargões criados pelos gurus do mercado são de uma perversidade que me provoca ojeriza. Como ter brilho nos olhos quando a melancolia te toma?

Diante desse quadro, a pessoa vai se tornando cada vez mais embotada e menores são suas chances de recolocação. Sua busca por alternativas ou pela ausência delas acabam direcionando o sujeito à situações informais de trabalho ou para contextos de produção inimagináveis antes.

Cito aqui dois exemplos que se contrapõem.

Como ilustração positiva, temos a história contada no filme “A partida”, do diretor Yojiro Takita. Daigo, músico de uma orquestra, perde seu emprego no dia em que assume a dívida da compra de seu novo violoncelo. Sem alternativa, ele vai para sua terra natal, se descobre e se reinventa numa profissão vista com preconceito por muitas pessoas da cidade. A função de preparador de mortos para os funerais traz para o protagonista o sentido de sua existência por se identificar com a nova função. Algo impensável antes!

Exemplo contrário, temos o excelente “Você não estava aqui”, película de Ken Loach, que faz uma crítica àquilo que denominamos “uberização” das relações de trabalho. O diretor denuncia a precarização dessas relações, maquiada pela ideia de empreendedorismo, de falsa liberdade e autonomia. As condições vivenciadas pelo personagem principal da história nos levam a questionar as premissas do neoliberalismo, como, por exemplo, a menor participação do estado na economia. Na pandemia do COVID 19 estamos vendo o quanto isso precisa ser revisto e questionado.

Daigo, de “A Partida” e Ricky de “Você não estava aqui” fazem escolhas e usam de estratégias para lidar com o desemprego. Felicidade para o primeiro, tragédia para o segundo.

E agora, quais estratégias utilizar para lidarmos com o desemprego e suas consequências?

A psicodinâmica do trabalho, escola francesa desenvolvida por Christophe Dejours, estuda particularmente as estratégias que as pessoas utilizam para lidar com o sofrimento no trabalho. Algumas dessas estratégias, como as defensivas, podem ser identificadas entre as pessoas desempregadas. São mecanismos de defesa que se caracterizam pelo isolamento, pela negação, a apatia e a banalização das adversidades, que nos levam a um estado de não consciência da realidade e ao aprofundamento do problema. Frida Kahlo, famosa artista mexicana, dizia que “emparedar o sofrimento é arriscar que ele te devore por dentro”.

Assim, negar o sofrimento vivenciado pelo desemprego não se revela uma boa estratégia. Gosto de usar uma metáfora com meus pacientes que se encontram em estado de depressão: imagine que você está atravessando um rio e no meio da travessia o barco se afunda. Você pode escolher afundar-se com ele, mas também pode tentar nadar até a margem. Para isso é preciso coragem e criatividade. Chore todas as lágrimas para que elas não te afoguem e lute com criatividade para enfrentar a realidade que se apresenta.

Na bela lenda persa das “Mil e uma noites”, Shariar, o rei traído, mata sua esposa e seu amante e impõe a seu povo um enorme castigo. As moças da cidade são obrigadas a se casar com o rei e, no dia seguinte, são mortas pelo vizir. Sherazade, a filha do vizir, corajosamente se oferece em casamento ao perverso rei, a contragosto do pai. Mas ela tem uma estratégia. Ela combina com sua irmã Dinazard que lhe interrompa na noite de núpcias para que Sherazade lhe conte uma fábula. Como combinado, a protagonista narra, encanta, mas não termina a história. O que deixa o rei muito curioso em saber o final. E assim, criativa e estrategicamente, ela impede que o rei a envie para a morte e, por consequência, salva as outras moças da cidade.

Diante do desemprego e da crise que nos assombra, precisamos agir como Sherazades. Precisamos nos reinventar todos os dias, por “mil e uma noites”.

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Psicóloga. Especialista em adolescência pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, Mestrado em Administração com ênfase em gestão de pessoas, Especialista em Psicologia Clínica: Análise existencial e Gestalt-terapia pela UFMG. Professora Universitária no Centro Universitário Newton Paiva em Minas Gerais.