A prática do Coaching se popularizou e virou “febre” por todos os lados. São inegáveis seus benefícios e sua eficácia quando bem aplicados e usados dentro do limite de alcance de suas ferramentas. Sabemos que o coaching ainda não é uma profissão regulamentada por um conselho que fiscalize, o que aumenta nossa responsabilidade na hora de escolher um bom profissional.

Todavia, confesso minhas decepção e indignação ao ver tanta gente por aí negligenciando tais limites e indo além das ferramentas que o Coaching permite. 

Talvez por ser psicóloga e coach, isso é muito claro para mim e por isso minha preocupação é tamanha.

Causa-me estranhamento como situações absurdas aconteçam diariamente de forma tão escancarada que chegam a parecer aceitáveis, vem daí minha motivação para escrever sobre este assunto. 

Foram tantas as vezes que fui procurada por coaches (não-psicólogos) os quais me pediam indicações de literatura na área da psicologia, que fiquei preocupada com o rumo que isso poderia tomar. Entendo que há pessoas bem intencionadas que gostariam de saber mais sobre o comportamento humano e os transtornos psicológicos / psiquiátricos e que isso poderia inclusive ajudá-los a perceber quando um cliente deveria ou não se submeter ao processo de coaching, e ser encaminhado a um profissional da saúde mental.

Infelizmente, profissionais que não tem uma real noção do estrago que uma intervenção inadequada poderia causar em pacientes que tenham algum tipo de transtorno grave (seja ele uma depressão maior, algum tipo de transtorno de ansiedade, um transtorno bipolar, esquizofrenia etc), acabam por se aventurar em terrenos desconhecidos sem habilitação para tal. 

Algum tempo atrás, um paciente me procurou no consultório com o seguinte diagnóstico: “angústia grave com quadro de depressão”. Ele trouxe um relatório com a cópia do “teste psicológico” (um desses testes online do qual eu nunca havia ouvido falar e que não era aprovado pelo CFP) e a cópia do que pretendia parecer uma devolutiva. Pensei que talvez pudesse ter sido um erro de digitação e procurei pelo CID ou DSM no documento que pudesse me ajudar a identificar qual seria esse tal diagnóstico que mais parecia uma sopa de letrinhas. Não havia. Nem carimbo. Nem assinatura. Apenas o nome e sobrenome de quem o atendia acompanhados pela ocupação: Coach Emocional. Oi? Ok, até aí tudo bem… 

O paciente relatou que vinha fazendo “tratamento” com a tal coach emocional mas não percebia nenhuma melhora, pelo contrário, sentia-se cada vez mais incapaz de retomar sua rotina, desmotivado e sem forças para seguir em frente. Enfim, a história é longa mas o que me chama atenção aqui é o nível de  irresponsabilidade de quem se arrisca a exercer uma profissão para a qual não é devidamente licenciado e treinado. 

Depois da anamnese, identifiquei que o paciente em questão já era diagnosticado (e tratado) com transtorno bipolar pelo seu médico psiquiatra, o qual fez indicação de acompanhamento com psicólogo concomitantemente. Era um caso clássico o qual demandava acompanhamento multidisciplinar devido à sua gravidade e seu histórico: tentativas / ideações suicidas recentes e alcoolismo. Qual seria minha surpresa se este paciente dissesse que estaria percebendo melhoras em seu quadro com o processo de coaching. Ele não tinha indicação para isso.

O coaching* é um processo indicado a pessoas que estejam mentalmente equilibradas, que não tenham nenhum comprometimento emocional significante que comprometa sua performance, ou transtorno que precise, primeiramente, ser tratado. O coachee (aquele que se submete ao processo de coaching) busca uma melhora geral, um aprimoramento, um ganho de performance nas diversas áreas de sua vida.

Um outro caso que me deixou bastante preocupada foi de um advogado / coach que me procurou e pediu indicação de leituras sobre como tratar  clientes depressivos. Senhor, dê-me paciência! Muita! “Bom, você tem duas opções”, falei. “Você tem a opção de se graduar em Psicologia para aprender a tratar pacientes (clientes) com depressão, ou tem outra opção, esta que eu considero mais rápida, que é indicar para um psicólogo”. 

Atenção!!!! Cada macaco no seu galho!

O treinamento em coaching é realmente incrível, entretanto, ele não habilita qualquer indivíduo que a ele se submeta a TRATAR PACIENTES QUE PRECISAM DE AVALIAÇÃO, DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO. Deixe esse trabalho para PROFISSIONAIS DA PSICOLOGIA / PSIQUIATRIA! Tenho visto INÚMEROS coaches prometento TRATAMENTO, e pior, prometendo CURA!!!!!!!! Isto é inaceitável.

Nem mesmo nós, que somos profissionais habilitados, treinados e licenciados da psicologia e da saúde em geral, poderíamos prometer cura. Nós, Psicólogos, NÃO prometemos cura! Se um coach (não psicólogo) te oferecer tratamento, ou te aplicar algum tipo de teste psicológico, ou te prometer cura, ou até mesmo se autodenominar psicoterapeuta, denuncie ao CFP (Conselho Federal de Psicologia). Isso é exercício ilegal da profissão de psicólogo. E exercício ilegal de profissão é crime! (site.cfp.org.br). 

Nós Psicólogos precisamos ficar atentos, orientar, fiscalizar e, quando necessário, denunciar. Por outro lado, como Coach, sugiro que aqueles que estão iniciando na profissão ou que ainda tenham dúvidas sobre sua atuação, informe-se com profissionais experientes, faça supervisão, estude bem as ferramentas. Precisamos conhecer nossos limites, dominar nossas ferramentas e sermos éticos acima de tudo.

Lembrando que “os testes psicológicos são de uso restrito a psicólogos e para serem aplicados e/ou comercializados devem ser aprovados pelo CFP”. 

*Se quiser saber mais sobre o coaching-psychology, como trabalha um coach, como atua um psicólogo e outras informações, acesse www.janekarenina.com ou envie um email com suas perguntas para [email protected]

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4 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo artigo Jane, concordo com você em gênero, número e grau. Também sou psicóloga e coach e confesso que me preocupo muito como tem sido a expansão do coaching na visão de profissionais que não são psicólogos. Este foi um dos questionamentos que fiz durante a minha formação de Coaching quando percebi que na minha turma havia administradores, contadores, advogados, engenheiros, etc. Meu questionamento: Como eles saberão se o coachee tem ou não condições de participar de um processo de coachng que é extramente dinâmico, intenso e requer feedback a todo instante? Como identificarão um cliente com comportamento disfuncional de um saudável? Isso sinceramente me preocupa. Concordo com você quando afirma “cada macaco no seu galho”, porque profissionalismo sabemos que são poucos que preservam. O que importa é que sejamos exemplo e façamos a nossa parte. Sucesso para você.

    • Oi Cláudia! Obrigada pelo seu feedback. Vejo que nossos questionamentos são muito similares e fazem muito sentido. Vejo pessoas banalizando o processo e cruzando uma linha perigosa. Infelizmente, penso que será um longo caminho e uma luta diária para evitarmos mais estragos. Tenho tentado orientar algumas pessoas quando identifico excessos para que os colegas coaches tenham a oportunidade de repensar a conduta de acordo com a ética profissional. Enquanto isso, vamos tentando dar nossa contribuição como for possível e a quem estiver aberto, não é mesmo? Sucesso pra vc!!!

  2. Ótimo texto, sóbrio, uma reflexão importante acerca dos excessos que alguns profissionais cometem na tentariva de se estabelecerem o mercado. Mas o mercado está cada vez mais exigente e competitivos, por isso aqueles que não se baseiam na ética não se sustentarão. Obrigado por compartilhar

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