Pescaria

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Já pesquei em muitos lugares. Lancei a vara no céu: estrelas pesquei. Lancei-a no horizonte, veio o pôr do sol. Lancei-a na multidão, a solidão encontrei. Atirei a vara na mente: pensamentos, ideias, planos, passado.
Lancei a vara na imensidão da alma, não consegui pescar, água turva e peixes mortos. Precisei clarear a alma, desanuviar o passado, perdoar a mim e a outros, tornar flexível a barreira do certo e do errado.
Lancei a vara sem rumo, o acaso escolheria o destino. Senti puxar. Veio tudo: sonhos, lixo, desejos, palavras engasgadas, ouro, ferro, papeis, lembranças, embaraços.
Eu não sabia o que fazer com aquela avalanche. Umas coisas eu guardei, outras doei, algumas perdi. Houve aquelas que trancafiei e as que fingi não ver. As que ignorei ou que tranquei sem antes olhá-las começaram a pesar. Carreguei-as para todos os lugares que visitei, até o dia em que não pude mais. Com elas, eu não podia mais pescar. Sem pescar, minha vida ficava parada. Eu precisava tomar uma decisão.
Olhei o que recolhi nas pescarias da vida. Organizei o que precisava ser encaminhado: gente que foi embora- descarte, gente que me magoou ou vice-versa- perdão, situação que já passou-guarda só o aprendizado, mesquinhez de sentimentos e quinquilharia- lixo, dor que já passou- gaveta da maturidade, alegria de uma conquista- prateleira da autoestima.
Foi assim, pondo cada coisa no seu devido lugar, que meu barco ganhou leveza novamente. Posso continuar a pescar, mas preciso antes abrir os olhos, mirar para o que quero, arremessar a vara com destino certo. Saber qual peixe quero pescar é o grande desafio agora.

2 COMENTÁRIOS

  1. July, adorei as metáforas. A vida é como um barco, navega em diferentes águas. Saber lançar a vara e recolher o peixe requer saberes que a própria pescaria traz com o tempo para aqueles que são capazes de compreender a imensidão dos sentidos. Mais uma vez naveguei em seu texto, parabéns!

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