Despertar

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Um dia resolvi sair correndo. No caminho, fui deixando a opinião alheia, a necessidade de aprovação, as crenças, as convenções sociais, gente que não agrega. Deixei sem dó. Quando dei por mim, estava nua. Mas não sentia pudor, pois ainda carregava em mim o que eu mesma gerava: cobrança, ansiedade, desejos não alcançados, inconformismo. Percebi que a mudança precisava acontecer de dentro para fora. Resolvi então vomitar tudo isso. Nada saía. Se nada saiu, pensei eu, é porque não havia nada de palpável ou sólido para sair.  Se minha mente mesma criava tudo isso, ela também daria conta de exterminar tudo aquilo.

Um dia resolvi ser louca, cansada da aparente normalidade. Percebi que meu louca era o mais normal dos seres. Falsa louca eu era. Ou falsa normal. Constatei então que o limite entre o que é louco e o que é normal também pode ser só uma questão de hábitos culturais e sociais com os quais aprendi a ser o que sou. Louca para uns, normal para outros, indefinida para mim.

Um dia resolvi que não queria mais uma porção de coisa: sofrer à toa, depender de algumas conquistas para ser feliz, criar expectativas. Foi um alívio não querer. Quanto desgaste um não causa! Substituí tudo isso por um agradecimento constante ao que acontecesse, fosse bom ou ruim.

Um dia resolvi ser outra: mais leve, mais agradecida, menos exigente, mais segura, menos sistemática. Menos e mais sempre juntos. Outra/eu.

Um dia saí de casa. Roupas, só a do corpo. Corpo, só o da alma. O resto e o necessário alojaram-se no meu pensar. Corpo fora de casa, alma fora de corpo, pensamento fora da caixa, eu fora de tudo. Precisei de espaço e, por incrível que pareça, estive perto de me centralizar.

Um dia eu ganhei o mundo. Ou o mundo me ganhou. Eu, que buscava tantas explicações, quando me uni ao mundo e vi a impossibilidade de entendê-lo , calei minhas perguntas e busquei escutar as respostas dele. O mundo fala, eu ouço.

Um dia resolvi ser grande e forte. Isso não tem nada a ver com poder. Falo de ser grande o suficiente para atuar com maturidade nesse mundo de adultos egocêntricos e perdidos, sem me machucar, e resistir às loucuras e ao ego dessa gente.

Um dia, parei de querer resolver. A solução está nas coisas como são. Fazia o que estava ao meu alcance, mais que isso, era entender como já resolvido.

Um dia olhei em volta. Vi tanta coisa boa. Senti um remorso por não tê-las visto antes. Agradeci e passei a olhá-las todos os dias.

Um dia fugi de mim. Cansei. Eu precisava me dar uma outra chance. Me convidei para fugir. Eu e eu nos demos as mãos. Eu antigo e eu novo tentando se reconciliar. Foi bonito ver essa aliança. Dois eus tentando se ajudar.

Um dia resolvi ser tão corajosa, mas tão corajosa que meu maior medo seria eu mesma. A confiança estaria toda em mim. Eu, senhora do meu destino, das minhas escolhas e vontades. Eu-coragem.

Mas o mais bonito mesmo foi o dia do encontro, ou melhor, do  reencontro. Foi como se a luz do meu nascimento tremulasse de novo, com  a mesma intensidade, com a mesma ternura, mas com uma beleza diferente: a beleza de quem fez por merecer, de quem reconquistou a fé em si, de quem retomou sua própria vida, de quem  acredita e faz o que é melhor para si. A beleza e a tranquilidade de quem vê em si uma amiga, um porto seguro, um guindaste, uma mola, um ser ao mesmo tempo líquido e sólido. Nesse dia eu me voltei para mim. Eu e eu construímos casa, formamos família, vivemos juntos, sonhamos juntos, fortalecemo-nos e enfrentamos o que a vida trouxe.

Nesse dia eu deixei de ser todo o não que eu não tinha e passei a ser todo o sim que eu era.

Um dia tudo vai acabar: as corridas, a loucura, as decisões, o cansaço, as conquistas, os (re)encontros, o eu. Espero gastar o “tudo” aqui e  partir como eu cheguei um dia: leve, flutuante, tranquila, plena, normal.