Atentado que vale menos, numa mídia que não vale nada

Em meio à polêmica desencadeada pelo anúncio de que os Estados Unidos restringirão a entrada de imigrantes de alguns países com laços islâmicos ou com qualquer forma de terrorismo, o Canadá anunciou que estaria de portas abertas para todos aqueles que fossem barrados em solo estadunidense. O anúncio foi feito pelo Primeiro-Ministro Justin Trudeau, no último dia 28 de janeiro, consistindo, na prática, na concessão de residência temporária para os estrangeiros nessa situação. No dia seguinte (29), um atentado terrorista matou seis pessoas em Quebec, deixando, ao menos, mais oito feridas.

O ataque foi praticado a tiros, com o uso de fuzis, de modo semelhante aos tão alardeados casos registrados nos Estados Unidos. Porém, a cobertura do fato na mídia foi completamente diferente.

Em vez de um estardalhaço, com plantões e inserções contínuas, o ataque foi timidamente noticiado, seguindo-se um estranho silêncio, sob a desculpa de ainda não se dispor de muitos detalhes. De fato, as primeiras informações eram truncadas, pois testemunhas afirmaram terem ouvido o tradicional “Allahur Akbar” (Deus é Grande) antes dos disparos, mas o alvo foi justamente uma mesquita, onde se cultuava a fé muçulmana. Ainda assim, há muito mais por trás desse silêncio inicial.

O primeiro entrave estava em não se poder utilizar o caso para requentar o discurso sobre o controle de armas. Ao contrário dos Estados Unidos, onde qualquer maluco, com uma arma ilegal, que adentre uma gun-free-zone (zona livre de armas) e saia atirando vira motivo para uma verdadeiramente insana discussão sobre o acesso fácil a tais artefatos, no Canadá impera legislação fortemente desarmamentista. Ali, um cidadão comum jamais poderia comprar um fuzil legalmente, e o fato de ter sido esse o tipo de arma utilizado somente reforça o quanto legislações restritivas são inúteis para a prevenção de ataques armados – como bem já exemplificavam os atentados de Paris, em 2015.

O outro grande problema era o alvo. Ataques praticados por extremistas islâmicos são facilmente tratados pela grande mídia, que criou um discurso politicamente correto para minimizar o fato, sempre dissociando os autores da religião que seguem e quase justificando seu radicalismo na incompreensão ocidental. Porém, sendo os islâmicos o alvo, torna-se evidente que há quem, mesmo que de modo tão insanamente radical como o de seus terroristas, não os tolere. E isso trazia à tona o fato de que o discurso do primeiro-ministro canadense não era unanimidade, isto é, a possibilidade de que seus cidadãos – talvez, quem sabe(?) – não estejam lá muito confortáveis em abrigar uma religião radical, que dá margem a interpretações pelas quais matar quem acredita em outra coisa é normal. Era melhor manter o silêncio.

A coisa só mudou quando, finalmente, acharam um “vínculo”, ainda que incrivelmente patético, de um dos suspeitos do ataque com a “extrema direita”  – aquele segmento político que, para a grande mídia, engloba todo mundo que não é de esquerda: ele curtiu as fanpages de Trump e Marine Le Pen no Facebook. Pronto, estava formada a conclusão investigativa que precisavam, nem o CSI seria tão eficiente.

A descoberta, valorada muitíssimo mais que o próprio ataque, rendeu manchetes nos maiores veículos informativos nacionais. Quase todos os grandes portais (aí incluídos a Veja, a IstoÉ e o UOL) voltaram a noticiar o atentado com esse “furo”, como se  essa fosse a motivação do assassino. Um duplo padrão moral escancarado, que busca dissociar terroristas islâmicos do islamismo(!), mas usa uma curtida de página no Facebook como elo entre um insano e a ideologia política contrária ao que pregam. Duplipensar, como definiria George Orwell, em estado puro. Aliás, se é para se valer da novilíngua (outra criação de 1984), um verdadeiro duplinoticiar.

A questão, pois, não é que o ataque de Quebec valha menos que os outros. O problema é que, atualmente, boa parte da grande mídia não vale nada.

 

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