Amar os inimigos

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por Nilton Ramos*

Na edição de hoje, me entrego à necessidade, e ao prazer de oportunizar um prestigiado artigo de autoria do escritor Abel Glaser com todos aqueles que nos dão a honra de nossa leitura, e, ao final, sugiro que cada um exercite alguns momentos de reflexão:

Nas palavras de Mateus [V, 20 a 43 e 47] e também nas de Lucas [VI, 32 a 36] encontramos o ensinamento de Jesus sobre a necessidade de amarmos os nossos inimigos se desejamos estar em harmonia com as leis de Deus e, portanto, em paz com a nossa consciência.

Enquanto no segundo lemos muito grande será a vossa recompensa em assim agindo, no segundo encontramos não entrareis no reino dos céus, ou seja, não se adentrará uma cidade espiritual de luz – como, por exemplo, Nosso Lar ou Alvorada Nova, entre outras – enquanto se faltar com a caridade para com o próximo, incluindo o perdão aos desafetos.

Perdoar significa doar de si e, por isso mesmo, não revidar quaisquer sentimentos de ódio ou atitudes de calúnia ou perseguição. Jesus não só ensinou, mas também exemplificou diante dos seus algozes, ao dizer do cimo da cruz: perdoai-os Pai, eles não sabem o que fazem.

Trata-se, sem dúvida, de um dos maiores desafios a encetar-se na esfera da reforma íntima pois implica em combater-se o impulso do revanchismo em si mesmo ao ser alguém ofendido de alguma forma. Não se pode esquecer, entretanto, que somos seres imortais e perfectíveis em contínuo processo de aprendizado e aprimoramento. Esta não é a nossa primeira reencarnação e nem será a última: já vivenciamos muitas para termos chegado ao ponto em que nos encontramos agora, sendo nossa meta alcançarmos no curso dos milênios a condição de Espírito puro, ou angelical se assim quisermos nos expressar.

Fomos todos criados simples e ignorantes e temos como alvo tornarmo-nos sábios e benevolentes pelo próprio esforço, inclusive aprendendo a fazermos bom uso do nosso livre-arbítrio.

Numa visão palingenésica [1] do ser, pode-se entender o porquê de grandes desafios no seio da família: muitas vezes parentes problemáticos são nossos credores, cobrando-nos hoje o afeto que lhes negamos em existências passadas, seja havendo-os agredido, seja tendo-os relegado ao abandono.

Inimizade, na família ou não, convém ser evitada, não se devendo, por exemplo, dizer: nunca perdoarei, ou então, perdoar eu perdoo, mas estender-lhe a mão nunca mais, porque aí não existe perdão verdadeiro, mas orgulho disfarçado com uma de suas máscaras. E o orgulho, esse sim é nosso maior inimigo, precisando ser combatido de forma contundente.

É evidente que a aproximação de uma pessoa que vibra contra nós faz bater nosso coração de forma diferente daquela outra que nos quer bem. Trata-se de uma lei natural, a da atração e repulsão dos fluidos e que tem a ver com a afinidade. Quando, pois, Jesus recomenda que amemos nossos desafetos não quer isso dizer que devamos necessariamente ter os mesmos sentimentos por todas as pessoas. No estágio evolutivo em que nos encontramos isso ainda não é possível.

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A essência do ensinamento está em que não entremos na faixa vibratória do desafeto, retaliando com a mesma postura, pois isso nos rebaixaria e estaríamos nos afastando também do Evangelho do Cristo, que deve ser o nosso guia seguro sempre. Seria recair na pena de talião do tempo de Moisés, a qual Jesus substituiu pela lei de amor, como deixou claro no episódio de Madalena, por exemplo: eu também não te condeno; vá e não peques mais.

Existe ainda outra razão para nos sentirmos motivados a cultivar os bons sentimentos, afastando-nos de mágoas, rancores e ressentimentos: estes últimos abrem brechas em nosso espírito possibilitando processos mente-a-mente não positivos com entidades menos esclarecidas, donde se pode concluir: quando perdoamos somos na verdade os maiores beneficiados.

 

Abel Glaser, escritor espírita

1 – Relativo a palingenesia; a nascimentos que se repetem; eventos iguais que se sucedem.

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