Alta Gastronomia e Trem Gostoso

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(por José Cláudio- Cacá)

 

“Há mil regras pra comê mas nenhuma pra cagá”

(do Analista de Bagé – In: A Velhinha de Taubaté – Luis Fernando Veríssimo. Ed. L&PM – pg 90)

Na história humana o que começou a civilizar o homem foi a necessidade de se juntar para se defender das intempéries e das feras. Normalmente, depois de uma turma reunida, dava fome e começaram a dividir o alimento que antes cada um comia sentado numa pedra, isolado e olhando em volta para ver se não vinha alguém ou algum bicho lhe tomar. O elemento mais socializante que temos na natureza, portanto é o alimento. Cada vez que sofistica-se o alimento, estamos distanciando os seres em vez de aproximar. A sofisticação do alimento dá brilho a quem come e não ao alimento em si, que é universal (pelo menos em tese e por direito natural deveria ser).

E os freqüentadores assíduos de restaurantes chiques? Se pudessem ser filmados diante daqueles pratos cheios de um patê de foie gras, por exemplo…

Devem gostar mais do nome. Pronuncia-se foa grá (chiquérrimo). (Para produzir o fígado de ganso o bicho é submetido a uma tortura inominável). Com qual talher se come? Sofisticação virou sinônimo de boa educação. Simplicidade, por seu lado, é risco de ser comparada com a pobreza.

O chato da chamada cozinha sofisticada é o sabor. Explico: a tal da alta gastronomia (falo daquela destinada a diferenciar umas pessoas das outras e não da comida propriamente) não prima pela simplicidade. E quando se trata de fome, vou lhe dizer uma coisa: toda a pompa vai pro beleléu. Ainda mais se os sabores não combinarem com os costumes de quem come. Experimente ir a um bufet morto de fome e encontrar lá pétalas de rosas, comidas adoçadas com mel, shitake e perfumes variados. Me desculpem os pudicos, mas é como uma brochada depois de uma conquista que seria a perspectiva de ver estrelas cintilantes e os olhos revirando de tanto prazer,. Comida boa é a temperada com coisa gostosa, feita com esmero e que combina com o tipo de paladar de cada povo, de cada região. É claro que as experiências, inovações, introdução de sabores exóticos de vez em quando são sempre bem vindas. Culinária é de uma dinâmica de possibilidades quase infinita, mas nada que se imponha tem vida longa por conta da aceitação passiva. A grande sofisticação é a elegância educada em escolher o simples.

A comida brasileira está entre as melhores do mundo na opinião de não brasileiros, pois na nossa opinião seria jogar brasa na própria sardinha e ai não vale, não é? Mesmo dentro do país desse tamanho todo, há variações de região para região e tem muita gente que torce a cara para comidas típicas, imagine comidas do mundo todo?

Não vão me chamar de conservador ou xenófobo, pois estou falando apenas do simbolismo que a alta gastronomia representa muito mais do que atender ao gosto de quem a pratica com freqüência de coluna social. Já tentei ser chique comendo com frequência umas comidas consideradas finas, mas me perdoem os poucos que apreciam, o negócio é ruim demais. Não combina com o meu biotipo, com a minha genética não se encontra no meu organismo a tal da memória gustativa para essa finalidade. Nada como buscar na gente mesmo, nas percepções produzidas pelo espírito, na cultura ou sei lá por onde, as próprias sensações, os gostos familiares. E não apenas demonstrar que se tem bom gosto para o público. O que vem da memória não precisa de discursos. Vai direto para os sentidos. Discurso é uma pratica social que legitima uma falta identidade do individuo. Como se diz aqui em Minas: é por isso que a gente gosta de trem gostoso.

 

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