A menina que esticava o tempo

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Tempo, essa unidade de medida que ela ousava esticar… sempre dizia que seu tempo funcionava diferente dos demais: se tinha um compromisso às 14h, organizava-se ara ele, mas nunca chegava pontualmente.
É que ela queria esticar o tempo. Explico: ela alargava as horas e minutos encaixando neles múltiplas tarefas, das mais variadas natureza.
O tempo, dizia ela, era um outro personagem na sua vida; havia dias em que ele funcionava e contribuía para que tudo acontecesse no momento certo. Havia dias em que ele atrapalhava e todo planejamento ia por água abaixo. Havia dias em que ele era o senhor, e tudo ditava. Ãs vezes corria sozinho, em outras, precisava ser empurrado.
A menina não sabia como lidar com ele. Se ficava ociosa, desgostava. Se se ocupava demais, cansava-se. O ócio às vezes era bom, mas também podia dar impressão de que estava estática. Para o avanço, muitas coisas ficavam para trás.
Ela percebeu que o tempo é bipolar e sofre muitas alternâncias, ora atribulações, ora calmaria, ora a vida anda, ora só passa. São sempre fases. Quando as olhou, lembrou a passagem bíblica: viu a época de amar, a de separar, a de conviver, a de perder-se, a de encontrar, a de ir, a de voltar, a de fazer, a de refletir, a de buscar, a de lançar. Viu o quanto essas fases são duais e o quanto a dualidade acompanhava cada fase: cada uma delas trazia o que lhe parecia bom, mas também o que não lhe agradava.
Ao se dar conta disso, ela não sentiu ansiedade por vivenciar nenhuma das fases. Sentiu sim vontade de lidar melhor com o lado das fases que não lhe agradava. Era como se procurasse comungar a paz com ambos os lados.
Ergueu um brinde à fase atual. Brindou também as fases passadas e as futuras. Percebeu ainda que o revezamento das fases é irreversível e traz a implacável passagem do tempo.
Achou melhor chamar o tempo para ser seu amigo: “Vem tempo, vamos passar da melhor forma possível, desmarcar as horas das coisas marcadas. Fica combinado que tudo o que me faz feliz pode ser feito a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer dia da semana ou do fim de semana”.
O tempo sorriu-lhe. Ele era um verdadeiro boêmio e um verdadeiro workaholic, entendeu perfeitamente. Aceitou esticar-se para tudo o que a fazia feliz. Ele seria um fantoche nas mãos dela, até que resolvesse parar.

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