Reconhecimento

0
363

Ela possuía muita coisa, coisas de matéria física, fatos que lhe ocorreram, lutas, conquistas, decepções, frustrações, perdas, ganhos. A maioria das coisas que ela tinha, as outras pessoas tinham também, ou ela possuía algumas que os demais não possuíam e vice-versa. Mas havia uma diferença: embora o rol de posses fosse praticamente o mesmo, algumas pessoas eram ricas e ela não.
Logo percebeu que não adiantava acumular, isso não equiparava as riquezas. Percebeu também que nem sempre o que conquistava ou comprava lhe trazia a riqueza da felicidade que era o prêmio mais almejado. Geralmente, as novas conquistas traziam um breve contentamento, que não chegava nem de perto à expectativa que criara.
“Algo está errado”, pensou inquieta. Começou a voltar as páginas da vida. Encontrou nas lembranças inúmeras conquistas que não eram contabilizadas, muito menos comemoradas.
Decidiu mudar. Cada dia comemoraria uma coisa. Resolveu fazer uma poupança, era hora de enriquecer e recolher os méritos de suas vitórias.
Pensou nas moedas que usaria: dedicação-determinação para os depósitos relativos ao trabalho e aos estudos. Carinho-amor para as relações próximas. Amizade-altruísmo para amigos e colegas. Amor-próprio para cada recolhimento feito. Também achou muito bom para seus investimentos afastar-se de posses vencidas, pouco rentáveis ou até mesmo prejudiciais.
Tudo o que era ganho era depositado, à noite, no banco da memória. E quanto mais depositava, mais rica ficava e mais enriquecia o ambiente e as pessoas a sua volta. Encontrou-se, então, num paraíso fiscal, pois descobriu contas que nem ela sabia existir, riquezas sem nome e sem senhas.
E quanto mais posses, mais queria saber: que moeda vou recolher hoje?
Rica tornou-se, riqueza espalhou.