Tarefas

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Diariamente, ela tinha uma tarefa: escrever por que valera a pena viver aquele dia. Às vezes essa atividade era bem-vinda. Noutras, olhada com enfadonho. Mas não deixava de fazer, aplicada que era.
Os motivos eram diversos: valera a pena viver hoje porque… “vi o pôr-do-sol, abriu uma orquídea na porta da minha sala, encontrei pessoa X, fui à feira com minha mãe, passeei com o Costela (seu cachorro), comi paçoca feita na hora”.
Tinha dias em que ela demoraaaava para achar os motivos, quase precisava inventá-los. Nos dias difíceis, depois de tantas tribulações, ela fazia o caminho do acordar ao de escrever. Nada! Refazia-o. Quando os olhos estavam cegos, encobertos pela negatividade, colocava lá qualquer coisa.
Tinha dias em que ela se lembrava de coisas de dias anteriores. Acho que a poeira saía dos olhos e ela via um motivo tão bonito que até a emocionava, logo anotava:
“valeu a pena viver pelas palavras da minha professora dizendo que ela não desistiu de mim”,
… “porque hoje vivi uma situação que me lembrou do meu avô, que sem poder sair e sem muita noção do valor de dinheiro, com sua letrinha tremida de Parkinson, sempre me mandava um cheque no meu aniversário”,
…”porque fiquei sem carro e meu pai foi meu levar ao trabalho e, após tantos anos, foi como na época em que ele me levava para a escola”,
… “porque eu senti um amor tão grande pela minha mãe, gratuitamente”…
E assim passavam os dias, observando, anotando, cegando, desvelando…
Até que chegou o dia que valeu a pena viver porque ela aprendeu coisas que não se aprende na escola. E olhe que aconteceu tudo de uma vez. Nesse dia, valeu a pena viver porque aprendeu que uma resposta certeira, dessas que se fica pensando muito para dar, simplesmente acontecem na situação certa. Também valeu a pena viver porque percebeu que quando se quer algo com segurança, seu patamar de exigência aumenta muito, já que não vale qualquer coisa. Viver valeu a pena ainda porque viu que, quando a resposta da vida não é a desejada, a tendência é pensar que dá tudo errado, quando pode ser só o livramento de um aborrecimento maior. Anotou também “hoje valeu a pena viver porque aprendi que as pessoas têm limites e, por mais que se queira fazer tudo da melhor maneira possível, tentar satisfazê-las sempre é impossível, há momentos em que preciso ser egoísta”. O penúltimo aprendizado anotado foi: “protelar é confortável, mas extremamente perigoso, eu devia ter feito isso antes!” E o último do dia mais que válido: “enfrentar uma situação não é olhar para o que o outro fez a você, mas olhar para si mesmo”.
E o caderno com as respostas da tarefa “por que valeu a pena viver hoje?” foi crescendo, crescendo, crescendo… até que chegou numa resposta bem curtinha: “sempre vale a pena viver, porque a vida é um milagre”.
Desse dia em diante, ela continuou com a tarefa, anotando os mini-milagrezinhos que acontecem todos os dias.