Não é uma tragédia | Marcos Piangers

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Minha irmã, filha de outro relacionamento da minha mãe, tem 30 anos e descobriu um tumor agressivo na mama esquerda no final do ano passado. Passamos os últimos meses cuidando disso. Minha irmã é jovem, o tumor é forte, sentimos todos o medo que se sente quando essa doença maldita chega perto de nós. Mas ninguém sofreu mais com a descoberta do que a minha mãe.

Sei o que ela sente. Ela sente a revolta que um pai sente que pode perder um filho. Minha mãe entrou em conflito profundo com a injustiça do mundo, com uma doença que pode arrancar-lhe parte do seu próprio corpo emocional, rasgar seu peito e deixá-la sangrando pro resto da vida. Sei o que ela sente porque tenho filhas. Daria minha vida por elas. Minha mãe deseja fazer o mesmo. Geralmente, quando dizemos que daríamos a vida por um filho imaginamos o momento em que nos jogamos na frente de uma bala que está indo em direção dele. Ou um barco que afunda, ou uma corda que está prestes a se romper. São momentos em que podemos salvar a vida de um filho, mesmo que isso signifique morrer. Acho que todos nós faríamos isso. Mas no filme da vida real nunca podemos fazer isso por eles. O roteiro é injusto e cruel, temos que ver nossos amados em perigo, impotentes.

Quando descobrimos o tumor escrevi o texto abaixo. Tive medo de publicá-lo e parecer insensível com o sofrimento de outras pessoas. Mas entendo também que todos os dias cometemos pequenas tragédias, quando não valorizamos o que temos plenamente.

Essas coisas acontecem. Um jovem adoece no verão. Um senhor é atropelado por um taxi. A biópsia aponta que o tumor é maligno. Essas coisas acontecem todo dia. E todos os dias saímos de casa achando que jamais acontecerá conosco. Uma doença leva embora um pai. O médico comunica um exame preocupante. Uma moto atravessa um sinal fechado. Todos os dias isso acontece. E todos os dias nossos planos são os mesmos. Trabalho, almoço, trabalho, jantar.

Não acho que seja uma tragédia quando essas coisas acontecem com a gente. Dizemos: “Que tragédia! Morreu tão cedo!”. Não acho que seja uma tragédia. Acho que a vida é um amontoado de caos e coincidência. Acho que hoje estamos aqui e amanhã não estamos mais. Uma tragédia é não agradecer por esse tempinho que estamos aqui. Uma tragédia é não valorizar a vida em família. Uma tragédia é trocar o sorriso do nosso filho pelo celular. Um passeio em família pelas preocupações do trabalho.

Uma tragédia é não abraçar as pessoas hoje. Uma tragédia é passar a vida em branco. Uma tragédia é achar que um dia vamos ser felizes, não hoje. Uma tragédia é achar que não vai acontecer com a gente. E a vida vai ficando pra depois. Um dia eu mudo de emprego. Um dia eu digo que gosto dela. Um dia eu faço uma viagem. Um dia eu vou ser voluntário nesse projeto.

Não acho que seja uma tragédia uma jovem cheia de planos descobrir uma doença grave. Acho uma tragédia quando aprendemos a valorizar o que temos só depois de perder. Acho uma tragédia não termos ido ainda para aquela viagem dos nossos sonhos. Acho uma tragédia viver de aparências. Acho uma tragédia ter comprado coisas achando que isso seria felicidade. Acho uma tragédia trabalhar em algo que você odeia. Acho uma tragédia você passar a vida brigado com alguém.

A morte não é uma tragédia. Tragédia é quando a gente não viveu.