Caixa de lembranças

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Às vezes ela se pede desculpas por ter lembranças. Por ter permitido-se viver situações que agora gostaria de esquecer. Basta um papel perdido, uma música, um jeito de arranjar as coisas… e logo o fio das lembranças traz coisas que hoje já não existem mais

Ela até pensa que tiveram de ser vividas, que serviram de aprendizado, mas como gostaria que as miudezas não evocassem lembranças. Bom seria se tivesse uma caixinha, dessas que a gente guarda no fundo de uma gaveta qualquer, e que nela ficassem algumas coisas. Dentre elas, estariam essas lembranças que não se referem a momentos ruins, mas o fato de terem se tornado lembranças gera uma sensação de impotência, de não conseguir segurar  o que gostaria de ter mantido, de não tornar perene alguns momentos da vida.

Nessa caixinha não estaria a lembrança dos pais que se foram, nem de entes queridos, nem da infância ou dos amigos. Isso é saudade. Estaria a lembrança daquilo que prometeu um dia e não se cumpriu. Estariam as coisas que vislumbrou, aquelas em que via um potencial, aquilo que poderia ter sido, mas não foi e, por um motivo ou outro, desfez-se antes de qualquer realização.

A verdade é que quando eram presentes, essas vivências, hoje lembranças, eram repletas de esperança, de expectativa. Era como se tivessem vivas e hoje estão mortas. Para a morte não há movimento, sensação, rumo. Agora que são só lembranças  só podem ensinar uma coisa: a vida anda para frente. Ninguém retorna ao útero materno, à infância, ou a qualquer outro tempo para viver de novo, ainda que haja a boa intenção de fazer diferente.

Talvez olhar para o que não deu certo, ou melhor, o que não foi como ela gostaria que fosse, só faça sentido se ela pensar que o que se desfez no ar era o melhor a acontecer. E se ela olhar um pouquinho mais de perto, verá que as expectativas eram dela, particulares, e não da situação. Compreenderá que se o potencial se realizasse, se o que poderia tornar-se se tornasse de fato, talvez realidade poderia também mostrar que estava enganada quanto a esse potencial.

Melhor será ela compreender que aquilo que tem potencial, torna-se de fato, e se não realizou-se, é porque não tinha de ser. Simples assim. Destino? Não, é só a vida poupando-a do que não precisa viver e encaminhando-a ao que é realmente seu.

Simples assim. Reto assim. Fácil assim. Tranquilo assim.

4 COMENTÁRIOS

  1. Juliana, seus textos trazem a leveza de uma alma que floresce de maneira simples e profunda, parabéns!!!

  2. Juliana, seus textos trazem a leveza de uma alma que floresce de maneira simples e profunda, parabéns!

  3. Obrigada, muito bom saber que cheguei até esse íntimo preciosos que é a alma! bj

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