Quando morre uma mãe e nasce uma filha

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Nada diminui nem o tamanho nem a intensidade da dor de ver a mãe partir. Nada ameniza o sofrimento de um filho, não importa o quão idosa ela esteja, ou a quanto tempo ela esteja enferma. Algumas pessoas, na tentativa genuína de se solidarizar com a família, dizem coisas como: “ela descansou”, “ela já estava doente” etc. De fato, o apoio social é fundamental em momentos tão dolorosos. Em contrapartida, este é certamente o momento mais contraditório pelo qual já passei. Minha mãezinha se foi há alguns dias e minha filhinha vai chegar em algumas semanas. E no meio deste caos emocional, nesse contexto de sentimentos tão antagônicos, eu me observo e me permito viver cada um deles a seu momento. O luto permanece e não tem hora pra ir embora. A dor é intensa, o vazio é latente. Ao mesmo tempo em que olho pro quartinho da minha Sophie, ela está vindo, tudo pronto, ela está sendo esperada com tanto amor, e sinto uma felicidade que também nunca havia experimentado. Morte e vida. Tristeza e alegria. Dor e paz. Lágrimas e sorrisos. Tudo junto em um mesmo tempo e espaço. Mãe e filha. Eu e elas.

Sentimentos vão convivendo aqui dentro em uma simbiose difícil de apartar. Eu apenas permito. Eu puxo a cadeira pra dor se sentar, já que ela quer ficar, que se acomode, porque tenho de dar espaço pra alegria de receber minha filha também. Então puxo duas cadeiras, uma de cada lado. Apesar da maior dor e da maior alegria estarem presentes ao mesmo tempo, preciso cuidar de mim pra que a vida que vai nascer venha saudável, cuidar de mim é cuidar dela, mesmo que eu não tenha vontade nem ânimo. Apesar de tudo, eu permito meus sentimentos e também apesar de tudo, eu opto por racionalizar. Um dia de cada vez. Sem pressa. Minha mãe e minha filha, por vocês o meu maior e mais puro amor. Assim vou me reinventando…