Durante uma sessão no meu consultório, uma paciente fez o seguinte comentário: “não entendo como eu não consigo ter bons relacionamentos, todas as minhas amigas estão felizes com seus namorados ou maridos e eu, como sempre, sofrendo com esse casamento”. M. é casada há muitos anos com J. e não consegue colocar um ponto final em uma relação conturbada com o atual marido. Este é seu terceiro casamento.

Eu perguntei o que a faz crer que todas as amigas dela tem uma vida feliz em seus relacionamentos? Ela respondeu: “posso te mostrar as postagens delas no Facebook?”

O mundo virtual é algo interessante e tão recente que talvez nossa geração não esteja mais viva para saber realmente quais serão seus efeitos a longo prazo. Mas já podemos notar algumas situações até cômicas, às vezes.

O Facebook, por exemplo, é uma terra de ninguém na qual podemos ser o que quisermos. Lá, tem gente que lava roupa suja, manda indiretas, manda diretas, cria “fake”, dá pitaco na vida alheia, tem gente que sensualiza, tem gente bom de papo, tem vida feliz 24/7. Tem de tudo. Tem, inclusive, quem acredite em tudo que vê e ainda se incomoda com a “felicidade” (virtual) dos amigos (virtuais).

Penso que essas redes sociais, em pouco tempo, terão a opção “detector de caras-de-pau”. Quanta vida perfeita! Ao mesmo tempo, há os que expõem seus sentimentos e angústias sem pudor e sem filtro. Não estávamos preparados pra tantas possibilidades, não tivemos tempo de nos blindar.

Sim, é bom poder ter a vida que sempre sonhamos, ainda que seja só aos olhos dos outros. Será? O virtual possibilita a revelação do que temos de mais íntimo, de desejos que tentamos disfarçar, de linhas soltas que falam muito mais de mim que do outro, de indiretas que me colocam de frente com o espelho, de expectativas, de provocações e da captura da atenção de alguém de grande importância, de elogios que, no mundo concreto, no ‘olho no olho’, não acontecem.

Sugeri à M. que me falasse como andava sua vida ao invés da vida das amigas. Ela disse: “virtual ou real?”. Silêncio.

Antes de ir embora, ela falou: “olhando para minhas postagens, tenho uma sensação estranha. É como se eu tivesse inveja da vida que eu criei no meu Face.” Perguntei o que a impedia de ter uma vida que se aproximasse da vida que ela idealizou. M. respondeu: “Deus me livre, isso daria muito trabalho”.

Ah, o virtual! O que de real ele esconde?

Compartilhe