Quando a resposta é não

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Eu me fiz assim e me construí assim: ouvindo o que as pessoas dizendo o que eu era; o que eu deveria fazer; elogios, só os de beleza (bem cara da sociedade machista); crítica por eu ser mulher, por eu ser burra, quieta, parada. Tive contato com gritos, caras amarradas e tristes, vida boêmia, desentendimentos.
Eu tive sorte, muita sorte. Ou melhor, eu tive Deus, muito Deus. paralelamente, tive bons exemplos de convivência, de educação, de pai de amigas. Tive vivências que me permitiram saber o que eu queria para mim e o que não queria. Tive a sorte de querer o que é bom e repelir o que não me fazia bem.
Posso dizer que tive uma vida mais de sorte, que de azar. Mas a vida não é um jogo de sorte e azar. A vida é escolha. A vida é movimentar-se. A vida é luta. É não aceitar, é sentir a dor, a raiva, o incômodo, o corte, o frio, a queda, a decepção a cada vontade que não se cumpre.
Vontade não feita, que bom! gera o incômodo, a provocação, a dificuldade que me levam a viver. Devo agradecer com profundidade a todo não que recebi, eles me tocaram para frente. Dos nãos que tive, os mais marcantes foram divisores de água, levaram-me a estudar, a buscar autoestima, a comprar apartamento próprio, a emprego novo. E, assim, eu posso dizer: Muito obrigada a todos os nãos. Eles fecharam uma porta. Eu me vi obrigada a bater em tantas outras. Sempre há uma porta que se abre. Essa porta sempre dá acesso a tantas outras.
Sinceramente, desejo receber ainda muitos nãos, se eles fossem contrários, eu estaria na mais pura mesquinharia, espaço de menina mimada que tudo consegue.
É assim que escolho ver um não: um rol enorme de possibilidades que se abre. Para cada não, gritam bilhões de sim dizendo “venha, experimente, ouse, faça diferente, arrisque-se, abuse, conheça, mude”. Minha resposta aos convites? Não sei dizer não, aceito a todos.

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